segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Gaia: imagens com história (VI) : o S. Gonçalo em Gaia – a primeira festa do ano

Imagem das Festas de S. Gonçalo na zona ribeirinha de Gaia. (Arquivo de imagens de António Conde)

Festas de S. Gonçalo 2012 – a comissão dos Mareantes do Rio Douro.  (Foto de António Conde)

Festa de S. Gonçalo 2012 – desfile na Avenida Diogo Leite. (Foto de António Conde)


Data: década de 60 do séc. XX.

Descrição: A imagem, com cerca de 50 anos, mostra uma das partes profanas dos festejos a S. Gonçalo na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia, junto ao tabuleiro inferior da ponte D. Luís I. Na essência a imagem em nada difere da imagem atual tal como não difere das descrições que remontam ao séc. XIX em que parece situar-se a origem desta popular festa gaiense.
O povo em júbilo acompanha o rufar dos tambores dos Mareantes do Rio Douro. À frente seguem os três figurantes, vestindo à século XVIII; um empunhando a cabeça de S. Cristóvão (que segundo a lenda foi degolado e a cabeça terá aparecido no rio Douro a flutuar), o outro, que dirige a função, transportando a pequena imagem de S. Gonçalinho e o terceiro representando S. Roque (o santo protetor da peste). De vez em quando o dirigente conhecido como o “homem do santo” (que também faz de arengador) brada para a multidão: “Viva a nossa querida cabeça de S. Cristóvão!”, “Viva o S. Gonçalinho!”, “Vivam os Mareantes do Rio Douro!” respondendo o povo com repetidos e sonantes vivas. Durante o percurso alguns populares tocam com a mão na cabeça de S. Cristóvão ou beijam-na.

Remissivas: Festividades gaienses/S. Gonçalo/Mareantes do Rio Douro/Santa Marinha (freguesia).

Bibliografia:
. FERREIRA, J. A. Pinto - Barqueiros e "mareantes do rio Douro": festejam S. Gonçalo, In: Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto. - Vol. 26, fasc. 3-4 (Set./Dez., 1963), pp. 721-734.
. GUIMARÃES, Gonçalves - São Gonçalo e São Cristóvão: Vila Nova de Gaia: o santo é nosso. Fot. Luís Pedrosa e Hernâni Gonçalves. - Vila Nova de Gaia : Câmara Municipal, 2006.

Sala de Fundo Local, Janeiro de 2011.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Honório Tavares da Costa – um comerciante e industrial gaiense. (II) A criação do Hóquei Clube de Paço de Rei



Logotipo do Hóquei Clube de Paço de Rei


Quadra alusiva ao “Paço”

A primeira equipa do Hóquei Clube de Paço de Rei

A equipa da “segunda fundação” do Clube

Local: Paço de Rei, freguesia de  Mafamude
Data: séc. XX (1ª metade)
Sinopse: No artigo anterior foi traçada uma pequena biografia deste gaiense de adopção e, para além da actividade por ele desenvolvida como comerciante, industrial, autarca e homem público, foi feita referência à sua actividade em prol do desporto e particularmente no apoio à patinagem desportiva sendo o Hóquei Clube de Paço de Rei o grande mecenado. É este facto que queremos aqui hoje recordar.
De acordo com um jornal da época (O Comércio de Gaia, de 15.08.1949, p. 8) “Além de obras e melhoramentos de monta, feitos por sua conta e à custa do seu dinheiro, do esforço e da tenacidade em bem valorizar Vila Nova de Gaia, Honório Tavares da Costa desbravou e levantou no lindo e histórico lugar de Paço de Rei, um formoso parque onde as famílias se podem reunir agradavelmente. Dentro desse formoso jardim, com lindíssimos arruamentos, motivos decorativos e alegóricos, o seu proprietário fez construir um “rinK” de patinagem que reúne todos os requisitos modernos e indispensáveis para a prática do óquei patinado, nele estando instalado o Oquei clube de Paço do Rei, de que Honório Tavares da Costa é seu presidente directivo”.
O Hóquei Clube de Paço de Rei, fundado há 64 anos, é ainda um clube de referência, com equipas de infantis, iniciados, juvenis e juniores.
O Hóquei Clube de Paço de Rei – breve historial
O Hóquei Clube de Paço de Rei foi fundado (de acordo com a página do Clube na internet) em 17 de Agosto de 1947 sendo Honório Costa o seu fundador e primeiro presidente. Esta data não é unânime já que uma notícia do jornal “O Comércio de Gaia, que reportamos fidedigna, aponta o mesmo dia do mês de Outubro, ao noticiar a festa do primeiro aniversário.
Funcionou como filial do Hóquei Clube de Sintra, clube e terra por quem Honório Costa nutria grande amizade. Com efeito o Hóquei Clube de Sintra participou com grande entusiasmo nos solenes festejos do primeiro aniversário desta equipa gaiense de que adiante daremos conta; participou, de igual modo, nos festejos do 5º, 10º e 40º aniversários.
O Hóquei Clube de Paços de Rei, nas suas primeiras décadas de vida, conseguiu elevar-se a um lugar de destaque na sua modalidade a nível de região Norte e até nacional. Com a perda do seu fundador e primeiro director o clube perdeu também o dinamismo que conseguira e não resistiu à extinção a qual veio a ocorrer em 1968.
Em 1976 um grupo de veteranos que se havia reunido para um jogo no velho ringue do parque de Santa Luzia ganhou entusiasmo e com o apoio de um grupo de moradores de Paço de Rei fez ressurgir o clube. A experiência foi motivadora e na época de 1978/79 o clube foi vice-campeão da segunda divisão e ascendeu à primeira divisão.
Na actualidade o Hóquei Clube de Paço de Rei dispõe de um pavilhão próprio, no Parque de Santa Luzia e tem equipas desde os infantis aos juniores. Dedica especial atenção às escolas de patinagem.
Nos finais de 2008 promoveu um jogo de hóquei em cadeira de rodas integrado na comemoração do dia mundial da pessoa portadora de deficiência.
Ainda no ano de 2008 celebrou um protocolo com a Gaianima funcionado no seu pavilhão um centro de formação desportiva de hóquei em patins.
A festa do primeiro aniversário do Hóquei Clube de Paço de Rei
Os festejos do primeiro aniversário começaram com a deslocação, em Agosto de 1948, do Hóquei Clube de Paço de Rei a Sintra a convite do Hóquei Clube de Sintra.
No dia 17 de Outubro de 1948 coube a vez do Hóquei de Paço de Rei de ser o anfitrião em dia de festejo do primeiro aniversário. A caravana de equipa sintrense chegou no sábado, dia 16, e foi recebida em Santo Ovídio pelo presidente do Clube, Honório Costa, pelo Dr. Carlos Vale e outros associados. Depois houve lugar a uma recepção nos paços do concelho, feita pelo vereador Moreira da Silva, no impedimento do presidente da Câmara. O mesmo Vereador, depois dos cumprimentos de boas-vindas e do agradecimento aos visitantes, acompanhou-os numa visita à Casa-Museu Teixeira Lopes e às suas vastas colecções.
No dia seguinte foi servido um almoço a cerca de 100 pessoas a que presidiu o Vereador Moreira da Silva, ladeado por Honório Costa, Raul de Oliveira (director do “Mundo Desportivo”, Dr. Silva Pinto (presidente do Hóquei de Sintra), Dr. Carlos Vale, e diversas outras individualidades como actuais e antigos autarcas do município gaiense e das freguesias, profissionais e amantes do mundo da patinagem, da imprensa desportiva, jogadores dos dois clubes, etc.
No final do almoço houve os discursos da praxe tendo o representante do Município felicitado os visitantes e aproveitado a ocasião para felicitar também Honório da Costa e o clube a que presidia que soube elevar tão alto o nome de Vila Nova de Gaia.
De seguida o Dr. Carlos Vale tomou a palavra e, em nome dos associados do Hóquei Clube de Paço de Rei, ofertou a Honório Tavares da Costa uma medalha de ouro em reconhecimento do trabalho desenvolvido em prol do clube. Finalmente falaram os representantes da equipa convidada fazendo colocar na lapela de Honório Costa a medalha de Grande Mérito. No final os oradores felicitaram Honório Costa e o Clube Hóquei de Paço de Rei pelo seu primeiro aniversário.
No final tiveram lugar dois jogos de hóquei, um entre a 3ª categoria do Sintra e a 1ª do Paço de Rei, o qual foi ganho pelos visitantes por 5 a 4 e o último entre a 1ª categoria do Infante de Sagres e a 1ª categoria do Sintra em que ganhou este último por 5 a 4. Venceu a taça “Câmara Municipal de Gaia” o clube sintrense, tendo o representante do município gaiense feito entrega da mesma ao capitão da equipa vencedora. Os intervalos foram abrilhantados com exibições de patinagem artística.
Queremos aqui evocar a figura de Honório Tavares da Costa e o seu papel de fundador e dirigente do Hóquei Clube de Paços de Rei.
Refira-se que em 1987, na comemoração do seu 40º aniversário, o Hóquei clube de Paço de Rei resolveu atribuir o nome do seu fundador, Honório Tavares da Costa, ao ringue de patinagem.

Remissivas: Gaienses ilustres /Honório Tavares da Costa/Parque de Santa Luzia/Paço de Rei/Hóquei Clube de Paço de Rei.

Bibliografia:
. Jornal “O Comércio de Gaia”, de 15.08.1949 e 19.09.1955.
. SILVA, Humberto Pinho da; Honório Costa: figuras inesquecíveis da nossa terra. In Jornal Notícias de Gaia / dir. Fernando de Sousa. - Ano XX, n.º 405 (9 Fev., 2006), p. 21.
Webgrafia:
http://hoqueiclubepacoderei.blogspot.com/ [consultado em 2011.12.20]
http://hcpacoderei.no.comunidades.net/index.php?pagina=1309649415 [consultado em 2011.12.20].

Texto de António Conde

Sala de Fundo Local, Dezembro de 2011

Honório Tavares da Costa – um comerciante e industrial gaiense. (I) A criação do Parque de Santa Luzia


Anúncio da Casa Honório. (Arquivo de Imagens de António Conde)


Honório Costa na fase final da vida (3.ª imagem à direita) e Honório Costa no elenco da Junta de Freguesia de Mafamude. (1955) (Arquivo de Imagens de António Conde)


Casa Honório – Rua Pádua Correia (Arquivo de Imagens de António Conde)

Fachada da Casa Honório na actualidade.
(Arquivo de Imagens de António Conde)

Local: Mafamude
Data: séc. XX (1ª metade)
Sinopse: Trata-se de uma personalidade nascida em pleno séc. XIX, em terras de Cambra, e que no início do séc. XX se fixou em Mafamude. Começou o seu tirocínio como serralheiro e depois como comerciante no Largo dos Aviadores e na antiga Rua de Trancoso, hoje de Pádua Correia. Provavelmente muitos gaienses só o conhecerão pela sua ligação à toponímia mafamudense. Contudo o seu nome está ligado a uma multifacetada acção, não muito conhecida, em prol do desenvolvimento da freguesia de Mafamude, onde foi autarca. Foi o fundador da centenária casa Honório (ao Trancoso) e mais tarde, na posse de um vasto património imobiliário foi promotor imobiliário, abrindo arruamentos e construindo casas. Adquiriu diversos terrenos na zona de Paço de Rei, a sua “menina dos olhos” e aí fundou um frondoso parque de recreio - o Parque de Santa Luzia, publicitado nos jornais gaienses, na década de 40, como a “sala de visitas” de Vila Nova de Gaia. Por sua iniciativa e contributo foi construído o acesso da Avenida da República ao Parque de Santa Luzia, naquilo que corresponde ao actual troço inicial da actual estrada nº 222. Foi um mecenas do desporto, designadamente do hóquei de patins, tendo sido o fundador e primeiro director do Hóquei Clube de Paço de Rei.
Vida e obra:
Honório Tavares da Costa nasceu, em 10 de Maio de 1886, em Macieira de Cambra, terra onde frequentou a escola primária. No início do século XX estabeleceu-se em Vila Nova de Gaia trabalhando como serralheiro na Casa Triães, na Bandeira, onde fazia cofres que depois eram ornamentados pelo escultor Diogo de Macedo.
Posteriormente estabeleceu-se por conta própria, fundando a Casa Honório, em 1909. Situava-se no Largo da Bandeira, ou dos Aviadores, no lugar onde hoje se encontra o café “Mon Ami” e dedicava-se à venda de panelas de ferro, louças e artigos de caça munições e espingardas. Fazia também reparação de espingardas e pistolas, de âmbito civil ou militar. As encomendas seguiam em carros de bois para a estação das Devesas para ser despachadas para os seus clientes.
Em 1920 mudou as instalações para a então Rua de Trancoso, ao lado da sua residência, onde ainda hoje se encontra, mas dedicada ao ramo das loiças.
Casou depois com D. Luzia Dias da Silva, uma senhora já com alguma idade e descendente de uma família rica do lugar de Paço de Rei. Provavelmente foi um casamento combinado discretamente pois no dia da festa alguém pintou a tabuleta que designava a “Casa Honório” com alguns acrescentos que permitiam ler “Hoje Casa o Honório”. Corre a versão que tal foi feito, pela calada da noite, pelo escultor Sousa Caldas, que morava na zona da Bandeira.
Na década de 30 resolveu lotear alguns terrenos a abriu a rua e travessa que hoje tem o seu nome, onde construiu moradias. Posteriormente adquiriu um vasto conjunto de terrenos desde a Avenida da República a Paço de Rei, rasgou as Ruas de Casais de Cidra e Santa Luzia e fundou o Parque de Santa Luzia. Nesse frondoso parque que mandou construir um ringue de patinagem destinado, de seguida, ao Hóquei Clube de Paço de Rei, clube que ajudou a fundar e do qual foi director até à sua morte.
O Parque de Santa Luzia
Localizava-se na zona de Paço de Rei, junto à actual E. N. 222, no lugar onde ainda existe um restaurante com o mesmo nome. Nos anos 40, quando foi construído o parque, a zona de Paço de Rei era constituída, na sua maioria, por grandes quintas, entre as quais se destacava a do Silva de Paço de Rei (provavelmente familiares da esposa do nosso evocado) cuja memória está perpetuada nuns azulejos existentes na fonte localizada num plano inferior junto à Rua de José Rocha. Esta rua, de perfil estreito e sinuoso, era o antigo acesso para quem, de Mafamude, demandava a zona de Cravel e o Monte da Virgem. Daí que, quando Honório Costa resolveu aproveitar as belezas do local e construir, num pequeno cerro, o Parque que baptizou de Santa Luzia, em homenagem à sua primeira esposa, com a sua pequena capela altaneira de invocação a Santa Luzia, teve de arranjar um acesso e entrada condigna. Consegui-o com a disponibilização de terrenos de sua propriedade com os quais abriu as ruas de Casais de Cidra e de Santa Luzia (com acesso a Santo Ovídio) e através da abertura do que seria o início da actual E.N. 222, projecto que mereceu o melhor empenho do Engº Malafaia.
Nos jornais da época o Parque da Santa Luzia era anunciado como tendo “bons ares”  e o  “O Parque das Flores e o melhor recinto de diversões de Gaia”. Dispunha de um serviço de bar, também anunciado e localizava-se a “poucos minutos do fim da linha 13 e das camionetes de Oliveira do Douro, Vilar de Andorinho e Avintes”.
Honório Tavares da Costa partilhou uma longa relação de amizade com o Advogado Dr. Carlos Vale e o escultor Diogo de Macedo.
Faleceu em 4 de Fevereiro de 1969, sem descendentes, em Mafamude, jazendo no cemitério paroquial desta freguesia.

Remissivas: Gaienses ilustres/ Honório Tavares da Costa/Toponímia gaiense/Parque de Santa Luzia/Paço de Rei/Hóquei Clube de Paço de Rei.

Bibliografia:
. ESTEVÃO, Duarte; “Mon Ami” e “Aviadores”… Temas para recordar (2), Vila Nova de Gaia, edição de Armando Pinto Moita, 2001, pp. 28-29.
. “O Comércio de Gaia”, de 15.08.1946 e 19.09.1955.
. SILVA, Humberto Pinho da; Honório Costa: figuras inesquecíveis da nossa terra. In Jornal Notícias de Gaia / dir. Fernando de Sousa. - Ano XX, n.º 405 (9 Fev., 2006), p. 21.

Webgrafia:
.http://hcpacoderei.no.comunidades.net/index.php?pagina=1309649415.[Consultada em 21.12.2011]

Texto de António Conde

Sala de Fundo Local, Dezembro de 2011