segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Gaia: imagens com história (V) - A ponte D. Luís e o 125º aniversário da inauguração



Ponte D. Luís I e trecho da Avenida Diogo Leite (c. década de 30 do séc. XX.)

O Mosteiro da Serra do pilar por entre os rendilhados da Ponte D. Luís (Foto de António Conde)

As 3 Pontes: das Barcas (memorial, em 1º plano),
de D. Luís I e D. Maria II (obeliscos ao fundo).
Foto de António Conde.


Data: década de 30 do séc. XX.

Descrição: No ano em que se assinala o 125º aniversário da inauguração da ponte D. Luís I (ainda que só com o tabuleiro superior), ocorrido a 31 de Outubro, apresentamos aqui uma imagem da mesma ponte e da que a antecedeu, a chamada Ponte Pênsil.
A imagem, que criticamente datámos dos anos 30, apresenta a ponte D. Luís, com especial destaque para o seu tabuleiro inferior. Ao fundo pode ver-se, para além da encosta portuense dos Guindais, os obeliscos (ainda existentes) da Ponte Pênsil, também chamada de D. Maria II, inaugurada em 1843.
O lançamento dos trabalhos de construção da ponte D. Luís I, em 1 de Dezembro de 1881, contou com a presença do rei D. Luís I, da rainha D. Maria Pia, do príncipe D. Carlos, do infante D. Afonso e de diversas autoridades civis e militares do Porto e de Vila Nova de Gaia e decorreu num pavilhão construído no terreiro do mosteiro da Serra do Pilar.
Pela passagem na ponte de peões, animais e carruagens era devida portagem, estabelecida por portaria, com valores que iam dos 5 réis, para peões, aos 240 réis para carruagens de 4 rodas e carroções com 4 cavalgaduras.
Em 28 de Outubro de 1905 foi inaugurada a passagem no tabuleiro superior da ponte D. Luís I das linhas de carros eléctricos nºs 13 (Praça da Liberdade – Santo Ovídio) e 14 (Praça da Liberdade – Devesas), inaugurando a era dos transportes colectivos em Vila Nova de Gaia.

Remissivas: Ponte D. Luís I/Rio Douro/As travessias do Douro.

Bibliografia: 
. O Porto e os seus fotógrafos, Porto, Livraria Civilização, 2001, p. 134.
. CRUZ, Paulo Jorge de Sousa; Cordeiro, José Manuel Lopes; As Pontes do Porto, Porto, Livraria Civilização, 2001.

                              


Sala de Fundo Local, Dezembro de 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Dina Teresa – uma fadista e atriz gaiense (1902-1984)



Dina Teresa contracenando com António Silva

Dina Teresa, Beatriz Costa e Nascimento Rodrigues


Dina Teresa

Novo Fado da Severa, de Dina Teresa
Local: Oliveira do Douro
Data: séc. XX – anos 30
Sinopse: Volvidos que são escassos dias após a aprovação pela UNESCO do Fado, a canção nacional, ou a “voz da alma”, como Património Imaterial da Humanidade, virá a propósito evocar uma fadista pouco conhecida, nascida em terras gaienses, que adoptou o nome artístico de Dina Teresa. Contudo alguns dos versos e canções por ela cantados, desde a década de 30, foram trauteados instintivamente por várias gerações de portugueses. É o caso do “Novo Fado da Severa”, “Velho Fado da Severa”, “Fado da Espera de Toiros”, “A Senhora da Saúde”, “O Vira”, “Na Taberna”, “Feira de Alcântara”, “A Rainha d’Alcântara”, todos musicados por Frederico de Freitas e boa parte deles com versos de Júlio Dantas.
 Foi, aliás, Dina Teresa quem imortalizou, pela voz, os versos: “Ó Rua do Capelão/ Juncada de rosmaninho/ Se o meu amor vier cedinho/ Eu beijo as pedras do chão/ Que ele pisar no caminho” cujo epílogo, à boa maneira do fado (do latim fatum = destino), visto como a narração cantada de um história de vida, é rematado com os versos “Tenho o destino marcado/ Desde a hora em que te vi/ Ó meu cigano adorado/ Viver abraçada ao fado/ Morrer abraçada a ti”.
 Este fado, originalmente chamado “Novo fado de Severa”, foi mais tarde recriado e cantado por Amália Rodrigues, com o título “Rua do Capelão”.
O seu nome figura ainda hoje entre as grandes divas e senhores do fado, dos primórdios do seu registo em disco até à actualidade e ainda uma recente colectânea discográfica editada com 43 temas de fado, intitulada “Fado – Estranha forma de vida” com contribuições que vão desde Amália Rodrigues, Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva às actualíssimas Ana Moura, Mariza ou Mafalda Arnaulth, contém um fado de Dina Teresa com o tema “Novo fado da Severa” que fez parte da banda sonora de “A Severa”.
Apesar do grande sucesso de Dina Teresa como fadista foi verdadeiramente o cinema que lhe trouxe a fama e a glória em Portugal e no Brasil onde trabalhou na arte do espectáculo nas décadas seguintes e onde passou a viver.
 Foi um talento descoberto por Leitão de Barros que, em 1931, entre centenas de candidatas, a escolheu pelo seu ar trigueiro para interpretar o papel de Severa no filme homónimo realizado por Leitão de Barros e que passou a ser o primeiro filme do cinema sonoro em Portugal.
Vida e obra
Dina Teresa Moreira de Oliveira nasceu em 24 (ou 15?) de Novembro de 1902, em Oliveira do Douro (ou Avintes?) filha de uma família de parcos recursos. Entre os 4 e os 13 anos de idade foi educada por uma senhora inglesa, na cidade do Porto. Desde cedo sentiu uma enorme atracção pelo teatro e conta-se que, aos 13 anos, sozinha, conseguiu convencer o empresário do cinema Águia d’Ouro a entrar nos quadros da sua Companhia.
Em 1916 estreou-se como corista no teatro de revista, no antigo Teatro Nacional (hoje Teatro Rivoli), na peça “O Trunfo é Paus”. Ao longo da década de vinte afirma-se a sua continuidade no teatro, embora não tenha conseguido grande protagonismo. Entrou, entre outras, em peças como “O Mexilhão, “Areias de Portugal”, “Há Festa na Mouraria”, “O Arroz-Doce”.
Em 1930, num concurso organizado pelo “Diário de Lisboa” para escolha da protagonista do filme “A Severa”, Dina Teresa foi escolhida pelo seu ar trigueiro que se adaptava à figura da cigana Severa, ela também fadista, cuja história de vida se pretendeu retratar. O filme tornou-se num enorme sucesso o qual se estendeu à sua protagonista principal. No cinema fez ainda parte do elenco do filme “A Varanda dos Rouxinóis”, contracenando com António Silva; este filme foi realizado em 1939 por Leitão de Barros.
Ao longo da década de 30 Dina Teresa participou em diversas operetas e revistas tais como “O Canto da Cigarra” (1931), “A Senhora da Saúde” (1932), “Peixe Espada” e “Nobre Povo” (1935).
Foi nesse período que conheceu Francisco Serrador Carbonell, um empresário de origem espanhola e um dos precursores do cinema no Brasil, que a convence a ir para o Brasil trabalhar na arte do espectáculo. Também aí terá uma carreira teatral de sucesso o que a leva a fixar-se em definitivo na cidade de Poá, no Estado de S. Paulo, onde faleceu, aos 82 anos de idade, em 7 de Abril de 1984.
A Severa – o primeiro filme do cinema sonoro em Portugal
O filme, que estreou em 1931, baseia-se na obra homónima de Júlio Dantas e foi realizado por Leitão de Barros e musicado por Frederico de Freitas; foi produzido pela Sociedade Universal de Superfilmes. Conta, no seu elenco, com a participação dos artistas Dina Teresa, Maria Sampaio António Luís Lopes, Ribeiro Lopes, Silvestre Alegrim, Augusto Costa, Patrício Álvares, Eduardo Dores, António Vilar e António de Almeida Lavradio.
A Severa retrata os costumes da sociedade lisboeta dos meados do séc. XIX e a verídica história de vida de Maria Severa, nascida em Lisboa em 1820 e falecida ainda muito jovem, em 1846. Terá vivido na Rua do Capelão, em pleno Bairro da Mouraria, numa casa ainda existente onde uma placa perpetua a sua memória. Filha de uma taberneira cigana que dava pelo nome de Barbuda e exímia cantadeira do fado diz-se que encantava os homens com os seus dotes físicos e o talento da sua voz. Não escapou às aventuras do jovem Conde de Marialva que por ela se apaixona, apesar de saber da sua ligação amorosa a um “pobre diabo” de nome Custódio. Apesar dos seus amores e desamores tinha um enorme carinho pelos mais pobres a quem ajudava materialmente.
A história de vida de Maria Severa estará intrinsecamente imbricada às origens do fado, deixando-nos como legado uma das manifestações artísticas mais conceituadas do nosso património imaterial, em boa hora considerada pela UNESCO com património de toda a Humanidade.
Dina Teresa na toponímia gaiense
A memória da famosa fadista e atriz gaiense não foi olvidada pela sua municipalidade que atribuiu o seu nome a uma praceta na freguesia de Oliveira do Douro.
Fado – Património Imaterial da Humanidade
Em hora de comemoração do valioso galardão atribuído pela UNESCO à cultura portuguesa, Vila Nova de Gaia tem razões para se sentir orgulhosa por ter tido, entre os seus naturais, uma mulher, nascida num mundo de adversidade, que contrariou o seu “fado”, o seu destino e que inscreveu o seu nome no quadro dos melhores artistas desta manifestação artística que agora partilhamos com o Mundo.
E … à guisa de conclusão, ficamos com “O Velho Fado da Severa”, tantas vezes cantado pela nossa evocada e que em história “de faca e alguidar” tão bem exprime o fatum, a voz da alma, sob o signo da saudade.
“Embora digam que não/Eu sou boa rapariga/Trago o sol no coração/ Trago a navalha/Trago a navalha na liga.// Quem tiver filhas no mundo/não ria das desgraçadas/Porque as filhas da desgraça/Também nasceram/Também nasceram honradas.”
Remissivas: Dina Teresa/Gaienses Ilustres/Toponímia gaiense/Fado - Património da Humanidade/Gaia e o cinema português.
Bibliografia:
. ALMEIDA, Luís de; Actriz Dina Teresa, In:  Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. –    Vol. 3, n.º 20 (Maio 1986), p. 28.
Webgrafia:
. A Severa. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-11-30].
  Disponível na www: .
Fontes sonoras
. http://www.youtube.com/watch?v=Wvk_wxjfN7U [Consultado em 2011-11-30].

                              Sala de Fundo Local, Novembro de 2011