quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Gaia: imagens com história (II)




























Título: O cais de Gaia e as ruínas de parte do Convento de Corpus Christi

Data: 1ª metade do séc. XX (cerca da década de 20)

Descrição: Imagem da zona ribeirinha hoje conhecida por Cais de Gaia, tirada de Sul para Norte, com a cidade do Porto em pano de fundo e o rio Douro de permeio. Em primeiro plano vemos o actual portal de entrada do convento de Corpus Christi e as ruínas de parte do convento que foram pasto das chamas e que depois de reconstruídas, no período do Estado Novo, albergaram o Instituto de Reinserção e actualmente a GAIURB. É digno de registo o (ainda) significativo tráfego fluvial.
Na zona então conhecida por Praia e hoje tradicionalmente designada por cais e onde ainda nos finais do séc. XX existia o pavilhão da APDL são dignas de registo uma plataforma com carris e guindastes que se eleva sobre o rio, bem assim vários armazéns provisórios. Trata-se respectivamente da estrutura que servia o antigo elevador da Calçada das Freiras e de edificações que serviam de armazém de apoio. Este elevador, como é sabido, fazia a ligação de mercadorias e pessoas entre este cais e a estação das Devesas.
É também visível junto às paredes em ruína uma pequena cúpula branca; trata-se, muito provavelmente, de um quiosque que ocupa o lugar do actualmente existente no Largo de Aljubarrota.

Remissivas: Cais de Gaia/Convento de Corpus Christi/Elevador da Calçada das Freiras

Bibliografia:
Porto. Margens do Tempo, Livraria Figueirinhas. Porto/Lisboa, 1997. p. 24


Sala de Fundo Local, Setembro de 2011






terça-feira, 27 de setembro de 2011

Os gaienses e a aeronáutica (V): dois pioneiros da aviação – Oliva Teles e Maria José Meneres Cudell
















Luís Gomes de Oliva Teles












O major Oliva Teles a bordo do “Porto”, o primeiro avião do Aeroclube do Porto













Maria José Cudell ao lado da sua aeronave













Licença de instrução de pilotagem de M.ª José Cudell.


Local: Arcozelo/Santa Marinha

Data: Décadas de 30 a 60 do séc. XX



Sinopse: A finalizar, por agora, este ciclo dedicado à aeronáutica, aos gaienses ilustres que se notabilizaram nos ramos da aerostação e da aviação e a factos e lugares da história local gaiense ligados à arte de voar, apresentamos dois pioneiros da aviação – o major Oliveira Teles e a piloto-aviadora Maria José Meneres Cudell, nascidos, respectivamente nas freguesias de Arcozelo e Santa Marinha.
O primeiro foi considerado um dos pioneiros da aviação em Portugal. Quanto à segunda trata-se da primeira mulher da região norte a obter licença de piloto-aviador.
Para além de terem em comum o facto de terem nascido em Vila Nova de Gaia, o gosto e o pioneirismo na aviação, Oliva Teles foi presidente do júri que atribuiu o brevet a Maria José Cudell. Trata-se, infelizmente, de duas figuras gaienses cuja história de vida está pouco divulgada.
Major Oliva Teles – o “apóstolo portuense da aeronáutica”.Luís Gomes de Oliva Teles, de seu nome completo, nasceu na freguesia de Arcozelo, em Vila Nova de Gaia.
Iniciou a sua actividade profissional na carreira militar, no extinto Batalhão de Metralhadoras 3, na cidade do Porto. Ingressou depois na Aeronáutica servindo na Escola de Sintra e comandando depois a Escola de Tiro e Bombardeamento de Espinho. Foi ainda comandante das bases aéreas de Tancos, de S. Miguel (Açores) e da Base de Balões de barragem de Defesa do Porto.
Recebeu várias condecorações, entre as quais se destacam: no estrangeiro - medalha de mérito do Ministério da Aeronáutica do Brasil, medalha de ouro da Fundação Santos Drumond de S. Paulo, Vice Comodoro da Patrulha Aérea Civil do Brasil; em Portugal - Oficial da Ordem de Avis, medalha dos “Serviços Distintos do Exército” e medalha de Bom Comportamento Militar.
Foi um dos fundadores do Aeroclube do Porto, o qual comprou o seu primeiro avião, baptizado de Porto, em 1935; aí, na patente de capitão, foi um dos fundadores da primeira escola de pilotagem da região norte e um dos instrutores deste aeroclube. Foi ainda delegado da administração da TAP no Porto e um defensor da localização do aeroporto do Norte em Pedras Rubras, considerando-o vital para o progresso da região. Na viagem inaugural do grande aeroporto do Norte foi ele, na qualidade de director, que recebeu os convidados que vieram de Lisboa num monoplano “Proctor” e três biplanos “Dragon Rapid”, no que foi o primeiro voo Lisboa-Porto-Lisboa.
Em sua homenagem em 18 de Janeiro de 1964, um grupo de amigos, descerrou um medalhão de bronze no aeroporto de Pedras Rubras. Viveu na freguesia de Guifões, concelho da Maia, muito perto do aeroporto. No dia do seu funeral o cortejo foi sobrevoado por cinco aviões do Aeroclube do Porto e um avião da TAP, em gesto de homenagem àquele que foi um dos pioneiros da aviação em Portugal.
O seu nome consta da toponímia da freguesia gaiense de Arcozelo e da maiata de Gueifões.

Maria José CudellMaria José Rebelo de Carvalho Meneres Cudell nasceu na freguesia de Santa Marinha, na principal avenida gaiense, em 18 de Janeiro de 1929, filha do advogado José Pinto Meneres e de D. Luísa Pacheco Teixeira de Carvalho Meneres. Era neta do antigo Presidente da Câmara, José Fonseca Meneres. Como psicóloga de profissão trabalhou no Centro de Saúde Mental Infantil e Juvenil do Porto.
A sua opção pela aviação terá sido influenciada pelo casamento com Walter Francisco Burmester Cudell em 31.07.1948. Foram pais de quatro filhos de nomes Maria José, Pedro Roberto, Maria Paula e Carlos Henrique, nascidos respectivamente em 1949, 1950, 1953 e 1961. Walter Cudell pertencia a uma respeitada família portuense e era um apaixonado pela aviação e ambos se prepararam para se credenciar como pilotos da aviação civil.
Em Julho de 1956 recebeu no Aeroclube do Porto as primeiras aulas de instrução de pilotagem e em 8 de Julho de 1958 fez provas e foi-lhe passada a licença de piloto aviador nº 1054/PP/1. Presidiu ao júri o aviador major Oliva Teles, acima referido.
Maria José Cudell foi assim a primeira mulher na região Norte a receber o brevet de piloto. No seu currículo conta-se a participação em diversos ralis tendo sobrevoado diversas cidades peninsulares.

Remissivas: Gaienses ilustres/Primórdios da aviação em Portugal/ Arcozelo (freguesia) /Santa Marinha (freguesia) / Aeronautas gaienses

Bibliografia:
. http://www.accv.pt/index.php/clube/historia?showall=1 (consultado em 2011.09.15)
.
http://aecporto.com/clube/historia.html (consultado em 2011.09.15)
. PEDROSA, David; A Primeira Aviadora do Norte de Portugal – Drª Maria José de Carvalho Meneres Cudell in Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, Vol. V, nº 32, pp. 47-48.
. TELES, Ayres Guimarães de Oliva; Major Oliva Teles. O Apóstolo Portuense da Aviação, in O Tripeiro, Série Nova, Ano IX, nº 8, Agosto 1990, pp. 255-256.



Sala de Fundo Local, Setembro de 2011.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Os gaienses e a aeronáutica (IV) : o malogrado Campo de Aviação da Madalena

















Limites aproximados da localização da Campo de Aviação da Madalena (entre a ribeira da Madalena e a Ribeira de Ateães) feita por decalque aproximado da Planta topográfica e cadastral.


















Planta do Campo de Aviação da Senhora da Hora
























Local aproximado do Campo de Aviação da Senhora da Hora


Local: Madalena


Data: anos 20 do século XX


Sinopse: Na década de vinte do século passado o norte do País, num processo liderado pelo município portuense e demais instituições da “Cidade Invicta” e atenta a necessidade de um campo de aviação, discutia sobre a melhor localização que servisse a cidade e a região. Lisboa já dispunha do seu campo de aviação, o “Campo Internacional de Aterragem de Alverca, o qual funcionou até à substituição pelo aeroporto da Portela.
Elegeram-se, à partida, vários lugares para o então denominado Campo de Aviação do Norte ou Campo de Aviação Internacional, a saber: Madalena (Vila Nova de Gaia), Candal (Vila Nova de Gaia), Pasteleira (Porto) e Senhora da Hora (Matosinhos). Destes o que reunia melhores condições, de acordo com a opinião dos melhores peritos portugueses em aeronáutica, era o campo a localizar na orla marítima da freguesia gaiense da Madalena. Porém o município portuense apoiava a opção do campo da Senhora da Hora pelo que o campo da Madalena, em 1927, foi preterido. Entre os defensores da solução “Senhora da Hora” estavam o professor Ezequiel de Campos, um homem com uma ampla visão sobre o planeamento da cidade, o qual defendia que “ o campo de aviação deve ficar tão perto quanto possível do centro da Cidade” e daí que defendesse “ o campo de aviação na Senhora da Hora: perto do centro da Cidade, perto de Leixões e perto das estações de caminho de ferro; embora fosse ideal obter ainda distâncias menores. Não perturbará muito os lugares de residência.”
Em boa verdade, na prática, nenhuma das opções foi concretizada, embora o Aeroclube do Porto tenha iniciado, já nos anos 30, o processo, depois indeferido, de aquisição de terrenos para o campo de aviação na Senhora da Hora. Este localizava-se sensivelmente no lugar da actual saída para Matosinhos (ao lado do NorteShoping) e serviu, contudo, para alguns festivais aéreos.
A solução acabou por ser encontrada no final da década de 30 com o projecto de construção do aeroporto da Região Norte em Pedras Rubras ocupando terrenos dos concelhos de Matosinhos, Maia e Vila do Conde. As obras foram iniciadas em 1943 e a inauguração ocorreu em 3 de Dezembro de 1945 com um voo proveniente de Lisboa; a internacionalização deste aeroporto dar-se-ia 11 anos mais tarde, em 1956.
Recorde-se que em 1935 a aeronáutica militar construiu um aeródromo em Espinho, o qual assegurou as ligações aéreas civis com Lisboa. Neste período quando o aeroporto de Lisboa não estava operacional, ou em casos de escala técnica, algumas companhias europeias, usaram o aeródromo de Espinho.

Um “aeroporto” em Gaia nos anos 30?
Como já foi referido a opção de construir o campo de aviação do Norte na freguesia da Madalena ganhou muitos adeptos mas, provavelmente, o peso político do município portuense e de várias instituições portuenses que defendiam uma infra-estrutura de cariz urbano, convenceram o governo da ditadura militar a desistir dessa opção.
Refira-se que o projecto do campo de aviação da Madalena foi encetado tendo sido feito o levantamento topográfico e cadastral de uma enorme extensão de terrenos necessários para o efeito. Na escolha da localização ideal trabalharam os melhores técnicos da aeronáutica como foi o caso do tenente-coronel aviador Cifka Duarte, o qual trabalhou também na selecção da localização dos campos de aviação da Achada (Ilha Terceira, nos Açores), em 1928 e do campo de aviação da Palmeira (Braga), em 1926. A opção pela Madalena recebeu, aliás, o parecer favorável da Inspecção da Aeronáutica Militar, a qual referiu expressamente que “dos três campos que foram indicados, Senhora da Hora, Alto da Pasteleira e da Madalena e que foram visitados, medidos e confrontados não resta dúvida, nem aos leigos, de que o último possui vantagens sobre os dois primeiros, que só depois de custosíssimas transformações dariam um medíocre campo para a aviação”. Em Julho de 1927 o vereador gaiense Artur Mariani teve, em Lisboa, em encontro informal com o tenente-coronel Cifka Duarte e o major Ribeiro da Fonseca que lhe terão afirmado que “o Campo da Madalena era de todos quantos tinham sido apresentados, o único em condições de se tornar um bom campo para receber aviões destinados ao comércio e portanto internacional”.
Em Vila Nova de Gaia depressa se gerou um movimento de solidariedade entre as várias freguesias, as quais, reunidas em maioria na sala de sessões da Junta de Freguesia de Santa Marinha, resolveram solidarizar-se com a Câmara e prestar todo o auxílio material e financeiro para que a construção do campo da Madalena fosse uma realidade.
Refira-se que, neste período, o concelho de Vila Nova de Gaia, estava a braços com uma profunda crise motivada pela criação do Entreposto exclusivo do Vinho do Porto. Esta medida que, a médio prazo, se tornou num factor de creditação do vinho do Porto nos mercados mundiais teve como efeitos imediatos a obrigatoriedade do encerramento de todos os armazéns de preparação de vinhos comuns, licores, etc. e a sua deslocação para fora dos limites da zona demarcada do Entreposto. Daí que todos os trabalhadores ligados a estes sectores, bem como outros ligados à tanoaria, caixotaria e outros ofícios viram os seus postos de trabalho ameaçados. O município perdeu rendimentos dos impostos das empresas que optaram em se deslocar para junto da periferia do porto de Leixões.
No contexto desta situação económica e social vivida a nível concelhio a construção dum campo de aviação traria novas perspectivas ao concelho. Nesse sentido o município gaiense fez todas as diligências junto das entidades competentes, nomeadamente com a 1ª Região Militar e o presidente da “Grande Comissão para a Construção dum Campo de Aviação no Norte do País”, na defesa do campo de aviação em terras gaienses.
Contudo todos os esforços foram baldados e o campo de aviação da Madalena não passou de uma miragem cuja memória caída no olvido queremos aqui resgatar.


Remissivas: Aeronáutica -- Vila Nova de Gaia, Madalena (freguesia), Campo de Aviação da Madalena, Aeronáutica -- Portugal.


Bibliografia:
. Arquivo Municipal Sofia de Melo Breiner - Planta topográfica e cadastral do campo de aviação da Madalena - ano de 1929; PT/ALL/CMVNG-AMVNG-M-A-01; Cota: 18357, doc. 151, Cx. 16.
. Arquivo Municipal Sofia de Melo Breiner – Livro de actas de sessões da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia; ano de 1927.
. Jornal “A Terra de Gaia”, ano de 1927.
.
http://www.portoantigo.org/2010/06/campo-de-aviacao.html (consultado em 2011.07.31)
.
http://www.cfportugal.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=266%3Aas-ligacoes-aereas-entre-lisboa-e-o-porto&catid=28%3Aboletim-no-412&Itemid=15 (consultado em 2011.07.30)

Sala do Fundo Local, Setembro de 2011.