quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Os gaienses e a aeronáutica no início do séc. XX (III) – a efusiva homenagem aos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral
















































Local: ex-Largo do Mártir ou da Bandeira / actual Largo dos Aviadores, freguesia de Mafamude

Data: 3 de Dezembro de 1922.

Sinopse: É conhecido o interesse despertado nas gentes gaienses, no início do séc. XX, pelas questões aeronáuticas, quer fosse pelo espectáculo das subidas de balão, a partir da velha praça de toiros da Serra do Pilar, quer fosse pela efémera fama dos seus protagonistas, quer fosse, ainda, pela inesperada dimensão da tragédia que, em Novembro de 1903 e em Julho de 1906, vitimou os aeronautas gaienses Belchior, “Menino de Oiro” e “Ferramenta”.

Talvez essa precoce empatia pela navegação aérea nos ajude a compreender melhor a forma entusiasta como os gaienses viveram e seguiram a evolução do raide aéreo empreendido pelos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, pilotando o hidroavião “Lusitânia”, o qual, em 1922, ligou Lisboa ao Rio de Janeiro. Daí que, conhecida a notícia do estrondoso sucesso da viagem transatlântica, ocorrido a 17 de Junho de 1922, as “forças vivas” da Vila pensaram em homenagear os novos “heróis dos ares”, através de um monumento, a colocar num dos largos principais da Vila e convidar os protagonistas para a sua inauguração. Assim, a Câmara Municipal, corporizando o desejo da população, logo na reunião de 23 de Junho, deliberou fazer uma justa homenagem aos aviadores, quando chegassem a Portugal, e nomear uma comissão para tratar dos festejos e do monumento a levantar no então chamado Largo do Mártir S. Sebastião ou da Bandeira e que, desde então, conhecemos por Largo dos Aviadores.

A travessia aérea do Atlântico Sul - Esta travessia foi planeada no âmbito do Centenário da Independência do Brasil e foi considerada na época um grande feito da história da aviação tendo em atenção a fiabilidade dos instrumentos de navegação convocados, concebidos por Gago Coutinho, e a precisão dos mesmos em voos então considerados de grande extensão. Refira-se que esta primeira viagem transatlântica entre a Europa e a América do Sul foi precedida de um outra viagem, ocorrida em 1921, entre Lisboa e o Funchal, que durou 7 horas e meia, tendo aqueles aviadores experimentado a eficácia dos seus instrumentos de bordo, a direcção dos ventos e outras questões técnicas e comprovado que os métodos seguidos e os instrumentos utilizados eram suficientes para fazer viagens de maior amplitude.

O raide foi iniciado em 30 de Março de 1922, em Lisboa, no hidroavião “Lusitânia” e durou 80 dias. Pela duração pode perceber-se que, embora fosse um feito notável para a época, foi recheado de escalas técnicas, escalas forçadas motivadas por consumo desmedido de combustível, afundamento do avião depois da amaragem, avarias no avião de substituição e esperas pela chegada do barco “Carvalho Araújo”, com um segundo avião Fairey, com o qual partiram para o troço final que os levou à baía de Guanabara e ao Rio de Janeiro, no dia 17 de Junho. O feito maior desta verdadeira odisseia foi o mérito de, graças à precisão do sextante, terem realizado uma etapa de 11 horas seguidas sobre o oceano tendo como referência os minúsculos Penedos de S. Pedro.

A homenagem em Vila Nova de Gaia - Em Vila Nova de Gaia, por decisão de Alberto Correia Teixeira, então presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal, foi organizada uma Comissão, incumbida da respectiva homenagem e construção de um monumento aos aviadores, a qual era constituída por uma plêiade de notáveis artistas e figuras gradas como Ramiro Mourão, mestre Joaquim Lopes, mestre Teixeira Lopes, Diogo de Macedo, Sousa Caldas, Domingos Romariz, Augusto Rocha e Aureliano Tavares. O monumento, cujo projecto já estava executado por autor que se desconhece, é em granito da região. Tem a encimá-lo a esfera armilar, a Cruz de Cristo e dois medalhões no frontal e respectivos dizeres.

A homenagem decorreu no dia 3 de Dezembro. Os aviadores chegaram de comboio, às 11 horas, à estação das Devesas, onde estava muito povo e várias bandas, entre as quais a da Sociedade 1º de Agosto, de Coimbrões. Seguiram para a cidade do Porto, onde foram homenageados; à tarde subiram o rio Douro até Crestuma, de visita à Fiação do Morais que Gago Coutinho conhecera em Angola. À noite fez-se a recepção em Vila Nova de Gaia, sendo a luz abundante uma novidade e um atractivo inaugurado uns meses antes, em 9 de Abril. O Largo, hoje conhecido por Largo dos Aviadores, estava cheio de gente e o monumento estava coberto com a bandeira nacional. Procedeu o aviador Gago Coutinho ao descerramento do cordão da bandeira, empunhado pelo filho do escultor Sousa Caldas; seguiu-se o fogo de artifício, as bandas de música tocaram o hino nacional e o povo aclamou os “heróis do ar”. A sessão solene realizou-se ali ao lado, na sede da Associação A Vilanovense, já que os Paços do Concelho ainda estavam em construção. Entre as altas individualidades presentes destacavam-se o ministro da instrução, Prof. Leonardo Coimbra, o bispo e o governador civil do Porto. Usaram da palavra o presidente da Câmara que referiu o júbilo dos gaienses por receberem os aviadores, o presidente da Comissão ad hoc, Ramiro Mourão e Aureliano Tavares, inspector escolar. Seguiu-se o discurso do Prof. Leonardo Coimbra e a finalizar usou da palavra Sacadura Cabral que agradeceu a homenagem.

Vila Nova de Gaia tornou-se assim a primeira terra portuguesa a erguer um monumento aos grandes aviadores e a perpetuar a memória do seu feito num dos largos mais emblemáticos da urbe.

A homenagem em Avintes - Também esta freguesia gaiense que cedo procurou estar na dianteira do progresso e da actividade cultural organizou patrióticos festejos de homenagem aos aviadores tendo para o feito criado uma comissão presidida pelo notário Dr. João Alves Pereira. Os primeiros festejos ocorreram ainda antes do culminar do raide aéreo e destinaram-se a desejar os melhores êxitos à heróica viagem; constaram de uma grande marcha luminosa, ao longo da Rua 5 de Outubro, e da oferta de uma esmola aos mais necessitados da freguesia. Os festejos posteriores, em honra do êxito alcançado e em homenagem aos aviadores, contaram com a presença de cerca de 5 000 pessoas, tendo a marcha luminosa percorrido a Rua 5 de Outubro. As associações culturais e recreativas contribuíram com iluminações, balões venezianos e alegorias de aviões e caravelas. As orquestras 1º de Maio e dos Plebeus Avintenses animaram os festejos. Estes foram retomados na semana seguinte com uma sessão solene no Clube Recreativo Avintense e uma cerimónia, no Teatro Almeida e Sousa, presidida pelo Dr. João Alves Pereira, destinada a entregar 2$00 a cerca de 125 pobres de Avintes, fruto de uma subscrição pública.

No dizer do Dr. João Alves Pereira “O cortejo, feérico, triunfal, pomposo, entusiasmou e empolgou pela sua imponência e majestade (…) Renasceu o orgulho de ser avintense, o desvanecimento de ter nascido numa terra em que os crepúsculos são rezas, as manhãs cânticos e as tardes promessas”.

Texto de António Conde

Remissivas: Monumento de Homenagem aos aviadores / Largo dos Aviadores -- Toponímia /Mafamude (freguesia)/Avintes (freguesia) /Cabral, Sacadura -- aviador / Coutinho, Gago -- aviador

Bibliografia:

. ALMEIDA, Luís Gomes de; A travessia aérea do Atlântico Sul: homenagem do povo de Avintes, In Caminho Novo, Ed. esp., nº único (1 Dez. 1992). Avintes, C.R.A., 1992, pp. 17-19
. Glorificando os heróis, In A Luz do Operário, de 18 de Junho de 1922.
.GUIMARÃES, J.A. Gonçalves; Republicanos, monárquicos e outros. As vereações gaienses durante a 1ª República (1910-1926); Vila Nova de Gaia, Amigos do Solar dos Condes de Resende/Confraria Queirosiana, 2010.
. http://www.vas-y.be/pt/historia/06.htm (visualizado em 2011.07.05).
. OLIVEIRA, Carlos Gomes de; Gago Coutinho e Sacadura Cabral no Porto e em Gaia, In Boletim Cultural dos Amigos de Gaia, vol. IX, nº 57, pp. 41-42.
. SOARES; Maria Luísa; A travessia aérea do Atlântico Sul. A homenagem do povo de Avintes, in Boletim Cultural dos Amigos de Gaia, Vol. V, nº 33, pp. 47-49.


Sala de Fundo Local, Julho de 2011