terça-feira, 19 de outubro de 2010

Exposição "Mãos que falam" de Carlos Marques















No passado dia 22 de Setembro inaugurou na Biblioteca Pública Municipal de Gaia a exposição "Mãos que falam", uma exposição de miniaturas de barcos de pesca feitos pelo artesão gaiense Carlos Marques. Estiveram presentes além do autor, a Directora da Biblioteca Dr. Cristina Margaride, Maria La Salete da Conceição Pinheiro como estágio de Prática Profissional da Licenciatura em Animação Sociocultural da Escola Superior de Educação Jean Piaget (Arcozelo). Muitos pessoas, amigos, familiares e curiosos quiseram parabentear o autor e observar com particular atenção a beleza, perfeição e minúncia destes barcos de pesca. Pela originalidade e qualidade dos materiais utilizados as reproduções são fieis aos originais conseguindo conquistar qualquer público que visita a exposição. A acompanhar esta exposição foi feita uma mostra documental e iconográfica intitulada "Os barcos da Nossa vida".

Carlos Alberto Moreira Marques - biografia

Carlos Alberto Moreira Marques, motorista de barcos, nasceu em 1947, em Santa Marinha. Filho de pai pescador e mãe doméstica, Carlos Marques pertence a uma família de sete irmãos. Para fazer face às dificuldades financeiras foi trabalhar com apenas 11 anos para o estaleiro da Afurada. À tarde, ia para a escola. Aos 14 anos vai para o mar e inicia-se nas artes de pescador. Aos 19 anos ruma para o Canadá e Gronelândia, dedicando-se à pesca do bacalhau durante 10 anos. Mais tarde imigra para a Alemanha, vivendo da pesca durante 9 meses e 9 anos na marinha mercante. Em 1987, vai para os Açores, e durante 6 meses dedica-se à construção de dois barcos. Faz três décadas que trabalha para o mesmo barco, agora transformado na Sociedade Leonel Cacheira & Zacarias Jesus Moreira, onde desempenha as funções de motorista, actividade que aprendeu na Escola de Pesca. Sempre que a safra da sardinha acabava e começava a época do defeso, que corresponde ao período entre Janeiro e Abril, Carlos Marques ia com o seu pai trabalhar para o estaleiro. É responsável pelo andor de S. Pedro e cabe-lhe a ele e ao seu irmão Afonso a tarefa da construção das barcas e respectiva manutenção. É uma tarefa que desempenha com gosto e paixão, desde que passou a integrar as diversas Comissões de Festa, há 25 anos. A paixão pela execução de miniaturas de barcos começou aos 14 anos, feitos à navalha e alisados com um pedaço de vidro. Faz barcos e arrastões de pesca, barcos de longo curso e veleiros, recorrendo à memória e à imaginação, não descurando qualquer pormenor. Neste momento está a trabalhar num veleiro de 30 m. Os materiais mais utilizados na construção dos barcos são o contraplacado, tola e metais que são utilizados para os mastros. Participou durante 4 anos na exposição “Afurada Tradicional” e expõe os seus barcos com frequência no comércio local da freguesia. Em 2008, participou em “Histórias Gemelas”, integrada no ciclo “DOCUMENTE-SE!”um conceito de Edurne e Clara Rubio.

Exposição patente ao público na BPMVNG de 22 de Setembro a 17 de Outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Centenária Associação de Socorros Mútuos Fúnebre Familiar de Grijó


Sede da Associação de Socorros Mútuos Fúnebre Familiar de Grijó


Carreta funerária da Associação

Local: Grijó

Data: 1892

Sinopse:
Esta associação mutualista foi criada em 2 de Outubro de 1892 e teve a sua primeira sede no Lugar de Loureiro de Baixo, local onde ainda funciona.
Foram seus fundadores, entre outros, Manuel Dias dos Santos, Manuel de Sousa Barros, Manuel Ferreira e Sousa, Manuel Pinto Oliveira.
Refira-se que nesta época se viviam tempos difíceis dentro das classes populares, com salários baixos e ausência de comparticipações em caso de doença, acidente, invalidez ou morte.
Vila Nova de Gaia já era, então, um importante centro comercial e industrial, com especial destaque para as indústrias ligadas ao vinho do Porto (tanoaria, caixotaria, etc), à cerâmica, à produção de cigarros, etc. Devido às difíceis condições de trabalho e à insegurança social, os trabalhadores gaienses constituíram um grande número de associações de protecção social, de carácter mutualista, sendo Vila Nova de Gaia um dos concelhos do País com maior número de associações, facto que ainda hoje é uma realidade.
Todos os anos esta associação grijoense festejava o seu aniversário com confraternização entre os sócios e festejos que incluíam arraial e música. Foi no decorrer de um desses festejos, precisamente o do ano de 1929, que a desgraça bateu à porta da associação. Assim na noite a seguir à festa deflagrou um grande incêndio porventura resultante de algum material mal apagado e depressa as chamas reduziram a cinzas, o recheio, a documentação e o dinheiro.
Algumas semanas volvidas reuniram alguns dos sócios numa casa privada, sob a presidência de Francisco Ribeiro Leal, para avaliar os prejuízos e analisar o futuro da associação. Constatou-se que um dos cofres tinha ardido ficando destruído todo o seu recheio constituído por livros, documentação vária, cadernetas de poupanças, obrigações da Câmara do Porto e bilhetes do Tesouro. Foi ali decidida a hipótese de reconstrução do prédio e respectiva ampliação para o que se aprovou a compra de uma faixa de terreno para alinhamentos. Foi eleita uma comissão interina, constituída por João José Oliveira, José Dias de Almeida e Joaquim Ferreira da Silva, a qual tratou de organizar peditórios para as obras da sede.
Em 1935 já com mais de 4 000 sócios a associação grijoense passou a dispor de uma carreta para os serviços de funeral e em 1942 já colaborava com os sócios na organização dos funerais, nomeadamente através da oferta de velas e ajuda nas questões burocráticas dos funerais.
A nível de assistência na doença havia, em 1935, um corpo médico constituído por 6 médicos. Em 1938 passou a dispor de serviço de partos e de pequenas cirurgias. Em 1948 os gabinetes médicos foram dotadas de novos materiais clínicos, nomeadamente medidores de tensão e caixas de primeiros socorros. Estes consultórios funcionaram até Fevereiro de 1975, data em que foram extintos, assim como as consultas ao domicílio.
Nas vésperas do Centenário a sede da Associação acusava algum estado de degradação o que não impediu a realização dos festejos. Estes tiveram a honra da visita do Presidente do Município gaiense, Heitor Carvalheiras, que se dispôs a apoiar as obras de recuperação.
Dois anos passados as obras são dadas por concluídas e a associação contava com perto de 6 mil associados, facultando apoio médico prestado por cinco profissionais.
Presentemente a centenária associação, com a denominação de Associação de Socorros Mútuos Fúnebre Familiar para Ambos os Sexos em Grijó e Freguesias Circunvizinhas, continua a prestar os seus serviços de protecção social apoiando os associados nas horas difíceis.

Remissivas:
Grijó (freguesia) / Protecção Social / Mutualismo em Vila Nova de Gaia.

Bibliografia:
. PEDROSA, David; Os 100 anos da Associação de Socorros Fúnebres e Mútuos de Grijó, Boletim Cultural da Associação Amigos de Gaia, vol. VI, nº 37, Julho 1994, pp. 19-23.
. COSTA, Francisco Barbosa da; Instituições do Distrito do Porto, Porto, Governo Civil do Porto, 2005, p. 786.



Sala de Fundo Local, Outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A festa e o culto a Santo Ovídio


Santo Ovídio, advogado das dores de ouvidos e dos maridos infiéis

Senhor do Padrão

Capela do Senhor do Padrão, também chamada de Santo Ovídio.

Local: Santo Ovídio, Mafamude, Vila Nova de Gaia.

Data: 1º domingo de Setembro.

Sinopse:
É pouco conhecida a biografia desde santo, um dos mártires do Cristianismo, ligado aos primórdios da Sé bracarense. Nascido na ilha da Sicília terá sido enviado, pelo Papa Clemente I, para Braga, onde foi o terceiro bispo, no ano de 95. Terá morrido, como mártir, no ano de 135 e está sepultado na Sé de Braga. No hagiológico cristão a sua festa decorre a 3 de Junho.
Na religiosidade popular Santo Ovídio, também chamado de Santo Ouvido, é advogado contra as dores de ouvidos e os maridos infiéis. Assim o povo, a quem os ditos males afligiam, fazia-lhe promessas de oferendas, na expectativa de ser correspondido. Estas consistiam em dinheiro, objectos de cera, nomeadamente ouvidos ou cabeças e, curiosamente, telhas.
O nome de Santo Ovídio é frequente na toponímia do norte de Portugal e Galiza e o seu culto encontra-se também aí muito difundido.
Na paróquia de Santo Ovídio, da freguesia gaiense de Mafamude, existe festa anual, durante muito tempo com feira anual, a qual tem lugar no primeiro domingo de Setembro, no Largo de Estêvão Torres, popularmente chamado de Largo da Feira, ou Largo de Santo Ovídio.
Este culto remonta, pelo menos, ao século XVIII sendo certo que em 1758, à data das “Memórias Paroquiais”, havia “festa no primeiro domingo de Setembro na capela de Santo Ouvido a festejar a imagem do mesmo Santo, tudo na maior veneração”. Nesse tempo havia duas modestas capelas, uma de invocação ao Senhor do Padrão, com festividade no primeiro domingo de Maio e outra a Santo Ovídio, as quais foram construídas pelo povo “para ouvirem missa nos dias de muito Inverno”, não tanto pela distância em relação à matriz de S. Cristóvão, mas, provavelmente, pelo mau estado dos caminhos. Este aspecto é importante pois, presentemente existem duas igrejas, em Santo Ovídio, conhecidas popularmente por capela de Santo Ovídio e igreja nova, esta construída há cerca de 20 anos. No entanto a chamada capela (ex-igreja) de Santo Ovídio, mudada para o lugar actual, devido à remodelação da rede viária, em 1950, conheceu uma apropriação da sua designação, já que deveria chamar-se capela do Senhor do Padrão. De facto até aos finais do século XIX, coexistiam, na Rua do Padrão, esta capela e uma outra de invocação a Santo Ovídio, a qual foi demolida, devido à pressão de um morador do local, rico e influente, e a quem a capela tirava as vistas do mar. De acordo com a tradição, o dito morador consegui valer os seus intentos, mas acabou por cegar vendo o povo nesse facto um castigo divino.
Por curiosidade refira-se que a capela oitocentista do Senhor do Padrão foi afectada pelo terramoto de 1755 tendo aberto “algumas fendas nas paredes e nos tectos” e, pelo facto de não haver esmolas para a reparação, o referido abade requereu a imposição do real d’água, no concelho de Gaia, para financiar as obras.
Como foi referido uma das promessas normalmente feitas a Santo Ovídio era a oferta de telhas. Esta particularidade, praticada em terras gaienses em tempos não muito distantes, é também conhecida de outras festas a Santo Ovídio, nomeadamente em Meixomil (Paços de Ferreira), Louro (Vila Nova de Famalicão), Valença e nas terras galegas de La Guardiã e Santa Tecla. Era também praticada com outros santos, nomeadamente S. Brás, na Nazaré, a S. Vicente e na festa do Espírito Santo, no lugar de Sá (Ponte de Lima). Em Valença, segundo a tradição, para obter as graças do Santo, devia oferecer-se sal e telhas roubadas, atadas com um vime novo, no dia da romaria.
De acordo com Soledade Martinho Costa esta prática aparece como propiciatória no roubo ritual que se fazia outrora do Menino Jesus que Santo António segura no colo, muitas vezes desaparecida da imagem do Santo, tradição que se manteve até aos inícios do séc. XX, segundo o povo, para dar sorte.
Uma notícia inserta no Jornal “O Concelho de Gaia”, de 6 de Setembro de 1873, dá conta dos festejos daquele ano; havia três dias de festa com missa solene, Santíssimo exposto, sermão e música. O arraial “é dos mais concorridos d’estes arredores”. Na segunda-feira houve feira, com distribuição de prémios “áquelles lavradores que apresentarem melhores exemplares de gado vaccum e suíno”. Na feira vendia-se de tudo, nomeadamente sementes e melancias.
Actualmente as festas são organizadas pela Junta de Freguesia de Mafamude e os programas das últimas festas têm incluído, para além das festas religiosas (missa e procissão solene), eventos desportivos, arraial e actuação de grupos folclóricos e musicais numa parceria entre a autarquia e as instituições associativas locais.
Remissivas: O Lugar de Santo Ovídio; a paróquia de Santo Ovídio; Fábrica de Loiça de Santo Ovídio/ Feira de Santo Ovídio/ Igreja nova de Santo Ovídio.

Bibliografia:
. COSTA, Francisco Barbosa da - S. Cristóvão de Mafamude: notas monográficas. Vila Nova de Gaia; Mafamude: Câmara Municipal, Junta de Freguesia, 2001.
. O Concelho de Gaia / ed. lit. Manuel Pinto dos Reis, de 06.09.1873.
. QUEIRÓS, Francisco, Pe. - Santo Ovídio , In: B.A.C.A.G., V. 1, nº 4 (Abr., 1978), p. 58-59 : 2 il.
. http/www.sarrabal.blogs.sapo.pt
. SILVA, Francisco - Mafamude velho: em recordações de saudade, In: B.A.C.A.G. – V. 3, nº 18 (Maio, 1985), p. 61-65: il.
. VALE, Carlos - A Capela do Senhor do Padrão, In: B. A.C. A. G. - V. 2, n.º 15 (Nov., 1983), pp. 51-54.

Sala de Fundo Local, Setembro de 2010