quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Romaria da Senhora do Pilar


Ponte D. Luís. A pé e de eléctrico, a caminho da romaria

(séc. XX – 3ª década) - In Ilustração Moderna


Romaria da Senhora do Pilar, no Campo de Manobras,

junto ao aqueduto que abastecia o mosteiro. (séc. XX – 3ª década)

In Ilustração Moderna




A romaria gaiense de Nossa Senhora do Pilar, também chamada de Nossa Senhora da Glória do Pilar tem lugar no dia 15 de Agosto, na igreja e no largo fronteiro à igreja do mosteiro da Serra do Pilar, considerado Património da Humanidade em 1996. É uma festa ainda cheia de tradições, como adiante veremos, apesar da crescente secularização e das mudanças estruturais que a sociedade actual tem conhecido.

A origem do culto e do dia da festividade
O dia 15 de Agosto é dedicado no calendário religioso à Assunção de Nossa Senhora ao Céu . O culto a Nª Sª do Pilar teve origem em Espanha, em pleno séc. XVII e terá sido trazido para Portugal depois da Restauração . De acordo com a tradição S. Tiago Menor, desalentado após o martírio de Santo Estêvão, no período das perseguições aos cristãos, veio pregar o Evangelho para Espanha. Foi aí que, segundo a tradição, lhe terá aparecido a Virgem, sobre um pilar, exortando-o à pregação e pedindo-lhe a construção de uma igreja, em sua dedicação. Em 1642 a cidade de Saragoça proclamou Nossa Senhora do Pilar padroeira da cidade, com festa no dia 12 de Outubro, dia considerado da aparição da Virgem a S. Tiago.
O culto a Nossa Senhora do Pilar que, a partir de Lisboa, conheceu uma larga difusão para o Brasil, arquipélagos dos Açores e da Madeira e Goa e internamente para a região de Tomar, chegou ao mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho de Gaia em 1676 , sendo a imagem levada em procissão e colocada no respectivo altar na Páscoa de 1678, sendo fixado o dia da Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto) como o dia do festejo anual. O novo culto depressa ganhou raízes e deu nome quer à igreja e mosteiro, quer ao antigo Monte do Meijoeira ou de S. Nicolau, que hoje conhecemos como mosteiro da Senhora do Pilar e monte da Serra do Pilar, respectivamente, com festa instituída a 15 de Agosto e que dura há 332 anos.
A (quase) destruição da igreja e mosteiro da Senhora do Pilar
Como é sabido o sítio da Serra do Pilar é, em termos militares, um lugar estratégico e, por esse facto, a igreja e o mosteiro passaram por vicissitudes várias que, por pouco, não ditaram a ruína das ditas construções e o fim do valiosíssimo património material e imaterial que lhe está associado. Aqui se inscreveram algumas das páginas mais apaixonantes e decisivas da História de Portugal, como foram as da expulsão dos franceses da cidade do Porto e o episódio do Cerco do Porto, que opôs liberais e absolutistas. Com efeito em 1832 o mosteiro foi abandonado à pressa pelos frades e serviu de reduto às tropas liberais, ripostando contra os ataques miguelistas e apostadas na defesa da cidade do Porto. A acção das partes beligerantes levou à danificação de alguns edifícios do mosteiro, à destruição de outros, devido a explosões e à alteração da Cerca devido à construção de fortificações de ocasião. Ainda hoje são visíveis as marcas dos disparos nas paredes da igreja.

Os “salvadores” do mosteiro da Serra do Pilar
Podemos identificar pelos menos duas entidades que, pela sua acção, evitaram a ruína da igreja, do mosteiro, e a continuação do culto e da festividade da Senhora do Pilar.
A primeira foi a “Real Irmandade de Nossa Senhora da Glória da Serra do Pilar”, instituída por alvará da rainha D. Maria II, de 10 de Setembro de 1844, que aprovou os seus Estatutos; nestes é estabelecido no capítulo IV que “No dia da festividade da Padroeira haverá missa cantada de três Padres, e sermão com o Santíssimo Sacramento exposto. E no fim da missa se cantará o Te Deum Laudamis, em acção de Graças pelos benefícios recebidos por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Glória do Pilar: a qual visivelmente protegeu os briosos defensores do Throno, para restituírem à legítima Rainha a Senhora D. Maria 2ª, abroquelando os bravos soldados do Senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosa memoria, para recobrarem a Carta Constitucional da Monarquia Constitucional da Monarquia e com ela a Liberdade Nacional e legal” . À Irmandade se deve o restabelecimento das actividades religiosas na igreja e a manutenção da festividade em honra da Senhora do Pilar, conforme se consignou no § 2º do capítulo V dos Estatutos.
A segunda entidade nasceu em 1925, fundada por Ramiro Mourão e denominou-se “Grupo de Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar”. Dela faziam parte figuras gradas da sociedade gaiense da altura, ligadas à escultura, pintura, à política, à história, à indústria, à beneficência, à medicina, etc. Este grupo preocupado o estado de abandono e incúria a que o Estado devotou o mosteiro da Serra do Pilar, havia quase em século, intercedeu junto do Governo e da Câmara Municipal tendo em vista o restauro e a reconstrução das ruínas. Era também sua atribuição, para além de outras actividades culturais, a criação, dentro do mosteiro, de um museu regional arqueológico, etnográfico, histórico, etnográfico e artístico.

A festa da Senhora do Pilar ao longo dos tempos.
Segundo depoimento do Padre Jorge Neves, nas Memórias Paroquiais de 1758, “Tem grande romagem a Senhora do Pilar sita no Convento da Serra, que se festeja a 15 de Agosto, a qual de muitas e várias terras concorre inumerável povo, por ser muito milagrosa, e em alguns anos passados concorria a gente oito dias antes da sua festa” .
Em 1861 Monteiro de Azevedo ao referir-se ao estado de abandono do mosteiro dá-nos também conta “da invocação com que é venerada na Igreja deste convento a Santíssima Virgem, a quem se faz sempre e ainda hoje, uma festividade solene no dia 15 de Agosto, e juntamente um arraial e feira de sementes e apeirias de lavoura” .
Do programa das festas de 1926, que respigamos do jornal “A Luz do Operário”, para além da referência à feira das sementes e dos melões e melancias produzidos nos campos gaienses, constava do quadro festivo, no dia da véspera, a alvorada de morteiros, o concerto pela banda de Gondomar e a iluminação eléctrica à volta do templo, esta uma novidade para a altura; no dia da festa houve missa solene às 11 horas com sermão, arraial e música, desde a tarde à noite. Num ligeiro tom de crítica o jornalista lastima a exiguidade do programa que atribui ao desinteresse da população e lamenta que não houvesse uma música no Campo de Manobras como seria tradição. Quanto ao trabalho da Comissão de Festas considera de louvar o trabalho de angariação de donativos para a realização da festa e para a conservação do templo e do culto da Senhora do Pilar .
Como se pode ver dos vários relatos, referentes aos séculos XVIII a XX, tratava-se de uma romaria que cedo ganhou a adesão das gentes gaienses e das terras vizinhas, nomeadamente da cidade do Porto, de onde provinham muitos dos romeiros que atravessavam a ponte de D. Luís a pé. Conforme relata “A Luz do Operário”, nos anos vinte de Novecentos, “por ocasião de várias romarias que se têm realizado no concelho de Gaia o povo aflui em tal quantidade que a ponte baloiça com tal violência chegando a estabelecer-se o pânico entre os transeuntes” .

A romaria da Senhora do Pilar na actualidade
Que poderá encontrar o romeiro que hoje se desloca à festa da Senhora do Pilar, para além de um monumento de bela arquitectura, único em Portugal, bem conservado e com adro e acessos dignos do melhor registo?
No essencial a festa conserva muito da sua antiga tradição, mormente nas cerimónias religiosas (missa com sermão), embora a afluência tenda a diminuir. A nível de realizações profanas existe a feira e as tendas de venda de fruta, pão e doçaria regional, plásticos, brinquedos, instrumentos agrícolas, etc. Esta parte da festa acusa preocupações de sobrevivência e terá dificuldade para resistir às ofertas dos novos “templos” do consumismo. As festas actuais perderam muito do seu espaço de sociabilidade, de religiosidade popular e do seu papel de abastecimento público que lhes era peculiar.
De visita à romaria da Senhora do Pilar encontrámos ainda melões e melancias, mas já não são colhidas nos campos de Canidelo, de Valadares ou da Madalena; vêm do Sul ou de Espanha. Há contudo boa doçaria regional e os característicos “velhotes” e a broa de Avintes. Ainda encontrámos sementes variadas, vendidas por uma idosa simpática. Há também cestos, escadas, apetrechos da lavoura, em madeira e ferro e pequenas alfaias numa oferta muito superior à procura.

Sala de Fundo Local 30.08.2010

Bibliografia:
. AZEVEDO, João António Monteiro de; SANTOS, Manuel Rodrigues dos; Descrição Topográfica de Vila Nova de Gaia, edição fac-similada da 2ª edição, Vila Nova de Gaia, Associação Cultural Amigos de Gaia, 1995, p. 38.
. Boletim Cultural de Gaia, nºs 1 e 2, Vila Nova de Gaia, Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar, 1966-1967.
. Gaya, vol. III, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 1985.
. GUIMARÃES, Gonçalves (1999); Serra do Pilar -.Património Cultural da Humanidade, Vila Nova de Gaia, Fundação Salvador Caetano.
. Mea Villa de Gaya (1909); Porto, Empresa Editora do Guia Ilustrado de Portugal.
. MOREIRA, Domingos A. (1985); Nossa Senhora do Pilar em Portugal, Vila Nova de Gaia