quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Discurso de Bernardo Lucas proferido no Clube de Vila Nova de Gaia em 1886: o fomento da instrução em Gaia no séc. XIX

Bernardo Lucas; O Tripeiro, 1966, p. 119 Bernardo Lucas no final da vida, O Tripeiro, 1950 Capa do livro “Discurso”

Local: Rua Direita, freguesia de Santa Marinha

Data: 1886

Sinopse: No dia 21 de Novembro de 1886, teve lugar na sede do Clube de Vila Nova de Gaia, sita à Rua Direita, da freguesia gaiense de Santa Marinha, a entrega dos prémios Luís de Camões e Soares dos Reis aos alunos premiados. No epílogo desta cerimónia foi proferido pelo Dr. Bernardo Lucas o discurso que vamos sucintamente dissecar, o qual ganhou honras de publicação que o autor dedica e oferece ao Clube de Vila Nova de Gaia. Previamente à análise do discurso importará fazer uma breve apresentação dos intervenientes, a saber:
Bernardo Lucas – o orador - Bernardo Lucas foi um distinto advogado, brilhante orador, autor de várias publicações no âmbito do direito, da poesia e da oratória, tradutor, jornalista, presidente do Ateneu Comercial do Porto e membro da direcção da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto tendo representado essa instituição em vários congressos internacionais de imprensa. No campo da advocacia cedo se revelou um distinto causídico patrocinando defesas judiciais polémicas de que são exemplo a de João Chagas, um dos revolucionários do 31 de Janeiro de 1891, e a do caso Calmon, uma célebre querela anti-jesuítica. No campo da educação a sua acção foi notável; foi fundador de um colégio feminino na Rua de Miguel Bombarda no Porto, foi professor, director do ensino secundário em Vila Nova de Gaia e proferiu diversas conferências ligadas a esta temática. Como homem de cultura privou com Eduardo Coimbra e António Nobre, colaborou com vários jornais e revistas, fez imensas conferências, nomeadamente sobre a vida e obra de Garrett e na homenagem a Mousinho de Albuquerque. No campo político é conhecida a sua precoce adesão aos ideais republicanos, patente na defesa dos revoltosos republicanos e na sua oposição ao jesuitismo; foi deputado republicano, pelo círculo de Vila Nova de Gaia em 1913 e 1915. Nascido no Largo da Praia, em Santa Marinha, em 22 de Maio de 1865, Bernardo Lucas formou-se como bacharel em Direito, pela Universidade de Coimbra, em 1888. Faleceu no Porto em 5 de Março de 1950. O discurso que aqui trazemos à colação foi proferido no vigor da sua juventude, quando era ainda um jovem estudante coimbrão de 21 anos e espelha a precocidade dos seus ideais republicanos em matéria de educação e a sua oposição ao modelo de educação dos jesuítas.
Os prémios escolares do Clube de Vila Nova de Gaia - O Clube de Vila Nova de Gaia foi fundado em 1877. Nos seus Estatutos aprovados pelo Governo Civil do Porto em 16.02.1882, consta a “instituição de prémios para difundir e animar a instrução elementar”, a ”promoção de conferências científicas e literárias” e a formação de uma “biblioteca com sala de leitura” para os associados. Refira-se que este Clube ao promover, em 1880, as comemorações do 3º Centenário da morte de Camões, instituiu um prémio denominado “Luís de Camões”, no valor de 20 mil réis, destinado “ao aluno ou aluna das escolas (…) de Gaia, que melhor classificação alcançar no exame de instrução primária feito no Liceu Nacional da cidade do Porto”. O Clube oferecia ainda aos alunos premiados um diploma e um exemplar de “Os Lusíadas”. O Prémio Soares dos Reis destinava-se a estimular a educação industrial e artística.
O discurso do Dr. Bernardo Lucas -No seu discurso o orador, embora apoie a ideia de construção de escolas defendida pelos que define como “evangelizadores do progresso intelectual”, considera da máxima importância a definição do modelo de escola, daquilo que é ensinado, como é ensinado e sobretudo que se pratique uma educação completa. De acordo com as suas palavras “Como na religião há o jesuíta, na política há o impostor: ambos são hipócritas, ambos enganam o povo, tripudiando sobre a sua ignorância”; daí a necessidade de estar atento. Bernardo Lucas refere que não pretende uma nação de sábios; contudo faz a apologia de que o nível intelectual dos portugueses ultrapasse o exame da instrução primária e combate a atitude dos pais que não deixam os filhos continuar os seus estudos, para além deste grau. Considera o autor que a instrução primária, o “saber ler, escrever e contar” é apenas e tão-só a base para a construção do sentido civilizador da instrução e que “Parar aí a educação é como que construir os alicerces e deixar por fazer o edifício”. No final da sua alocução Lucas fez uma saudação aos candidatos e lembrou que o grande mérito dos prémios pertencia também, e sobretudo, aos seus professores. Comparando a falta de instrução a uma vasta planície árida, coberta de urze, o autor considerou que é através da escola que se pode arrotear a inteligência do concelho, preparando o terreno onde as sementes vão frutificar. Referiu ainda que, no censo de 1878, o concelho de Gaia tinha cerca de 53.000 habitantes, dos quais apenas 20% sabiam ler. Depois dirigiu-se aos instituidores dos prémios Luís de Camões e Soares dos Reis a quem agraciou com palavras de contentamento e esperança pela obra feita e exortou a continuar a sua missão, prontos a vencer os escolhos que iriam encontrar pelo caminho, seguindo a divisa “querer é poder”.

Remissivas: Bernardo Lucas / O Clube de Vila Nova de Gaia / Educação em Gaia no séc. XIX / Poetas de Gaia

Bibliografia:
. Bernardo de Almeida Lucas in O Gaiense, Ano V, 1 de Julho de 1965, p. 4
. LUCAS, Bernardo – Discurso proferido no Clube de Vila Nova de Gaia em 21 de Novembro de 1886, Coimbra, Imprensa Académica, 1886.
. O Tripeiro, V Série, Ano V, nº 11, p. 254, de Março de 1950.
. SILVA, Melchior; Recordando o Dr. Bernardo Lucas, in O Tripeiro, VI, VI, nº 4 Abril, 1966, p. 119.

Sala de Fundo Local, Dezembro de 2010

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Mário Cal Brandão – um combatente pela liberdade


Palacete da família Cal Brandão junto à Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia
(actual Praceta 25 de Abril).


Mário Cal Brandão no Governo Civil do Porto (á direita).



Livro de Mário Cal Brandão.



Evocação no centenário do nascimento.

Data: 1910 – 1996

Sinopse:
Mário Cal Brandão nasceu no Porto, em 1910, filho de pai galego ali radicado. Frequentou os liceus Rodrigues de Freitas e Alexandre Herculano e após terminar o ensino liceal na cidade do Porto matriculou-se em Direito tendo frequentado as Universidades de Coimbra e de Lisboa, onde se licenciou em 1933. O seu percurso político é indissociável do de seu irmão, Carlos Cal Brandão, também ele advogado, tendo percorrido ambos um longo caminho de oposição à ditadura salazarista, facto que os levou, por várias vezes, a serem detidos pela PIDE/DGS e a conhecer as duras realidades da residência fixa, da prisão, do exílio e da deportação.
O início da intervenção política de Mário Cal Brandão teve lugar quando era um jovem estudante da Academia de Coimbra e foi eleito para a respectiva Associação Académica. Mais tarde militará no Núcleo de Doutrinação e Acção Socialista, no Movimento de Acção Socialista (MUNAF) e no Movimento de Unidade Democrática (MUD), ao lado de democratas como Vitorino e José Magalhães Godinho, António Macedo, Artur Santos Silva (pai), Paulo Quintela, Teixeira Ribeiro e Gustavo Soromenho. Durante a Guerra Civil de Espanha fez parte de uma comissão de apoio aos refugiados espanhóis. Nas várias campanhas eleitorais para as eleições presidenciais que decorreram nas décadas de 40 e 50 do século XX fez parte das comissões distritais do Porto de apoio às candidaturas oposicionistas de Norton de Matos, Quintão Meireles e Humberto Delgado. Foi várias vezes candidato a deputado pela Oposição Democrática à Assembleia Nacional tendo subscrito o Programa para a Democratização da República.
Cal Brandão ocupou várias vezes a bancada na defesa de combatentes pela liberdade julgados nos Tribunais Plenários Criminais do Porto órgão que, por três vezes, também o julgou por delitos de opinião. Como oposicionista conheceu por quinze vezes a passagem pela prisão.
O seu escritório de advogados que fundou com seu irmão Carlos, Eduardo Ralha e António Macedo e a sua própria casa foram locais de conspiração e encontro dos homens do “reviralho”, assim como de abrigo dos perseguidos pela polícia política da ditadura, sob o olhar cúmplice e acolhedor de sua mulher Beatriz Cal Brandão.
Em 1964 foi um dos fundadores da ASP (Associação Socialista Portuguesa), a qual, em 1973 daria origem ao Partido Socialista, fundado na Alemanha juntamente com Mário Soares, Tito de Morais e outros.
Após o 25 de Abril foi deputado na Assembleia da República, em todas as legislaturas até 1991, exceptuando a legislatura intercalar de 1980.
Mário Cal Brandão desempenhou também o cargo de Governador Civil do Porto desde 30 de Agosto de 1974 a 21 de Fevereiro de 1980 e em 1983-1985.
Foi agraciado pelo Presidente da República Portuguesa com a Ordem Militar de Cristo e pelo rei de Espanha com a Ordem de Mérito Civil.
Faleceu em Outubro de 1996, ficando para a História como um resistente antifascista e um dos obreiros da construção da democracia em Portugal.

Referências a Mário Cal Brandão em Vila Nova de Gaia

A figura de Mário Cal Brandão foi homenageada e perpetuada na toponímia gaiense existindo uma rua com o seu nome na freguesia de Santa Marinha, junto ao Choupelo.
No ano de 2006 a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia atribuiu o nome desta figura de combatente pela liberdade a uma urbanização social, sita na freguesia de Avintes, tendo sido feita uma homenagem a que esteve presente o ex-presidente da República Dr. Mário Soares e a viúva do homenageado.
No sítio onde hoje se encontra a actual Praceta 25 de Abril existiu, até aos anos 70 do século passado, um palacete da família Cal Brandão, cuja imagem aqui se reproduz.

Remissivas: Ditadura salazarista/Luta pela liberdade/Toponímia – Santa Marinha.

Bibliografia:
. COSTA, Francisco Barbosa da; História do Governo Civil do Porto, Porto, 2004.
. Entre o passado e o presente, Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova
de Gaia, 2000.
.
http://www.psporto.org/download.php?611be149de997851390ed37e0ffa2c21, visualizado em 2010.10.29.

Sala de Fundo Local, 03.11.2010.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Exposição "Mãos que falam" de Carlos Marques















No passado dia 22 de Setembro inaugurou na Biblioteca Pública Municipal de Gaia a exposição "Mãos que falam", uma exposição de miniaturas de barcos de pesca feitos pelo artesão gaiense Carlos Marques. Estiveram presentes além do autor, a Directora da Biblioteca Dr. Cristina Margaride, Maria La Salete da Conceição Pinheiro como estágio de Prática Profissional da Licenciatura em Animação Sociocultural da Escola Superior de Educação Jean Piaget (Arcozelo). Muitos pessoas, amigos, familiares e curiosos quiseram parabentear o autor e observar com particular atenção a beleza, perfeição e minúncia destes barcos de pesca. Pela originalidade e qualidade dos materiais utilizados as reproduções são fieis aos originais conseguindo conquistar qualquer público que visita a exposição. A acompanhar esta exposição foi feita uma mostra documental e iconográfica intitulada "Os barcos da Nossa vida".

Carlos Alberto Moreira Marques - biografia

Carlos Alberto Moreira Marques, motorista de barcos, nasceu em 1947, em Santa Marinha. Filho de pai pescador e mãe doméstica, Carlos Marques pertence a uma família de sete irmãos. Para fazer face às dificuldades financeiras foi trabalhar com apenas 11 anos para o estaleiro da Afurada. À tarde, ia para a escola. Aos 14 anos vai para o mar e inicia-se nas artes de pescador. Aos 19 anos ruma para o Canadá e Gronelândia, dedicando-se à pesca do bacalhau durante 10 anos. Mais tarde imigra para a Alemanha, vivendo da pesca durante 9 meses e 9 anos na marinha mercante. Em 1987, vai para os Açores, e durante 6 meses dedica-se à construção de dois barcos. Faz três décadas que trabalha para o mesmo barco, agora transformado na Sociedade Leonel Cacheira & Zacarias Jesus Moreira, onde desempenha as funções de motorista, actividade que aprendeu na Escola de Pesca. Sempre que a safra da sardinha acabava e começava a época do defeso, que corresponde ao período entre Janeiro e Abril, Carlos Marques ia com o seu pai trabalhar para o estaleiro. É responsável pelo andor de S. Pedro e cabe-lhe a ele e ao seu irmão Afonso a tarefa da construção das barcas e respectiva manutenção. É uma tarefa que desempenha com gosto e paixão, desde que passou a integrar as diversas Comissões de Festa, há 25 anos. A paixão pela execução de miniaturas de barcos começou aos 14 anos, feitos à navalha e alisados com um pedaço de vidro. Faz barcos e arrastões de pesca, barcos de longo curso e veleiros, recorrendo à memória e à imaginação, não descurando qualquer pormenor. Neste momento está a trabalhar num veleiro de 30 m. Os materiais mais utilizados na construção dos barcos são o contraplacado, tola e metais que são utilizados para os mastros. Participou durante 4 anos na exposição “Afurada Tradicional” e expõe os seus barcos com frequência no comércio local da freguesia. Em 2008, participou em “Histórias Gemelas”, integrada no ciclo “DOCUMENTE-SE!”um conceito de Edurne e Clara Rubio.

Exposição patente ao público na BPMVNG de 22 de Setembro a 17 de Outubro de 2010

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A Centenária Associação de Socorros Mútuos Fúnebre Familiar de Grijó


Sede da Associação de Socorros Mútuos Fúnebre Familiar de Grijó


Carreta funerária da Associação

Local: Grijó

Data: 1892

Sinopse:
Esta associação mutualista foi criada em 2 de Outubro de 1892 e teve a sua primeira sede no Lugar de Loureiro de Baixo, local onde ainda funciona.
Foram seus fundadores, entre outros, Manuel Dias dos Santos, Manuel de Sousa Barros, Manuel Ferreira e Sousa, Manuel Pinto Oliveira.
Refira-se que nesta época se viviam tempos difíceis dentro das classes populares, com salários baixos e ausência de comparticipações em caso de doença, acidente, invalidez ou morte.
Vila Nova de Gaia já era, então, um importante centro comercial e industrial, com especial destaque para as indústrias ligadas ao vinho do Porto (tanoaria, caixotaria, etc), à cerâmica, à produção de cigarros, etc. Devido às difíceis condições de trabalho e à insegurança social, os trabalhadores gaienses constituíram um grande número de associações de protecção social, de carácter mutualista, sendo Vila Nova de Gaia um dos concelhos do País com maior número de associações, facto que ainda hoje é uma realidade.
Todos os anos esta associação grijoense festejava o seu aniversário com confraternização entre os sócios e festejos que incluíam arraial e música. Foi no decorrer de um desses festejos, precisamente o do ano de 1929, que a desgraça bateu à porta da associação. Assim na noite a seguir à festa deflagrou um grande incêndio porventura resultante de algum material mal apagado e depressa as chamas reduziram a cinzas, o recheio, a documentação e o dinheiro.
Algumas semanas volvidas reuniram alguns dos sócios numa casa privada, sob a presidência de Francisco Ribeiro Leal, para avaliar os prejuízos e analisar o futuro da associação. Constatou-se que um dos cofres tinha ardido ficando destruído todo o seu recheio constituído por livros, documentação vária, cadernetas de poupanças, obrigações da Câmara do Porto e bilhetes do Tesouro. Foi ali decidida a hipótese de reconstrução do prédio e respectiva ampliação para o que se aprovou a compra de uma faixa de terreno para alinhamentos. Foi eleita uma comissão interina, constituída por João José Oliveira, José Dias de Almeida e Joaquim Ferreira da Silva, a qual tratou de organizar peditórios para as obras da sede.
Em 1935 já com mais de 4 000 sócios a associação grijoense passou a dispor de uma carreta para os serviços de funeral e em 1942 já colaborava com os sócios na organização dos funerais, nomeadamente através da oferta de velas e ajuda nas questões burocráticas dos funerais.
A nível de assistência na doença havia, em 1935, um corpo médico constituído por 6 médicos. Em 1938 passou a dispor de serviço de partos e de pequenas cirurgias. Em 1948 os gabinetes médicos foram dotadas de novos materiais clínicos, nomeadamente medidores de tensão e caixas de primeiros socorros. Estes consultórios funcionaram até Fevereiro de 1975, data em que foram extintos, assim como as consultas ao domicílio.
Nas vésperas do Centenário a sede da Associação acusava algum estado de degradação o que não impediu a realização dos festejos. Estes tiveram a honra da visita do Presidente do Município gaiense, Heitor Carvalheiras, que se dispôs a apoiar as obras de recuperação.
Dois anos passados as obras são dadas por concluídas e a associação contava com perto de 6 mil associados, facultando apoio médico prestado por cinco profissionais.
Presentemente a centenária associação, com a denominação de Associação de Socorros Mútuos Fúnebre Familiar para Ambos os Sexos em Grijó e Freguesias Circunvizinhas, continua a prestar os seus serviços de protecção social apoiando os associados nas horas difíceis.

Remissivas:
Grijó (freguesia) / Protecção Social / Mutualismo em Vila Nova de Gaia.

Bibliografia:
. PEDROSA, David; Os 100 anos da Associação de Socorros Fúnebres e Mútuos de Grijó, Boletim Cultural da Associação Amigos de Gaia, vol. VI, nº 37, Julho 1994, pp. 19-23.
. COSTA, Francisco Barbosa da; Instituições do Distrito do Porto, Porto, Governo Civil do Porto, 2005, p. 786.



Sala de Fundo Local, Outubro de 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A festa e o culto a Santo Ovídio


Santo Ovídio, advogado das dores de ouvidos e dos maridos infiéis

Senhor do Padrão

Capela do Senhor do Padrão, também chamada de Santo Ovídio.

Local: Santo Ovídio, Mafamude, Vila Nova de Gaia.

Data: 1º domingo de Setembro.

Sinopse:
É pouco conhecida a biografia desde santo, um dos mártires do Cristianismo, ligado aos primórdios da Sé bracarense. Nascido na ilha da Sicília terá sido enviado, pelo Papa Clemente I, para Braga, onde foi o terceiro bispo, no ano de 95. Terá morrido, como mártir, no ano de 135 e está sepultado na Sé de Braga. No hagiológico cristão a sua festa decorre a 3 de Junho.
Na religiosidade popular Santo Ovídio, também chamado de Santo Ouvido, é advogado contra as dores de ouvidos e os maridos infiéis. Assim o povo, a quem os ditos males afligiam, fazia-lhe promessas de oferendas, na expectativa de ser correspondido. Estas consistiam em dinheiro, objectos de cera, nomeadamente ouvidos ou cabeças e, curiosamente, telhas.
O nome de Santo Ovídio é frequente na toponímia do norte de Portugal e Galiza e o seu culto encontra-se também aí muito difundido.
Na paróquia de Santo Ovídio, da freguesia gaiense de Mafamude, existe festa anual, durante muito tempo com feira anual, a qual tem lugar no primeiro domingo de Setembro, no Largo de Estêvão Torres, popularmente chamado de Largo da Feira, ou Largo de Santo Ovídio.
Este culto remonta, pelo menos, ao século XVIII sendo certo que em 1758, à data das “Memórias Paroquiais”, havia “festa no primeiro domingo de Setembro na capela de Santo Ouvido a festejar a imagem do mesmo Santo, tudo na maior veneração”. Nesse tempo havia duas modestas capelas, uma de invocação ao Senhor do Padrão, com festividade no primeiro domingo de Maio e outra a Santo Ovídio, as quais foram construídas pelo povo “para ouvirem missa nos dias de muito Inverno”, não tanto pela distância em relação à matriz de S. Cristóvão, mas, provavelmente, pelo mau estado dos caminhos. Este aspecto é importante pois, presentemente existem duas igrejas, em Santo Ovídio, conhecidas popularmente por capela de Santo Ovídio e igreja nova, esta construída há cerca de 20 anos. No entanto a chamada capela (ex-igreja) de Santo Ovídio, mudada para o lugar actual, devido à remodelação da rede viária, em 1950, conheceu uma apropriação da sua designação, já que deveria chamar-se capela do Senhor do Padrão. De facto até aos finais do século XIX, coexistiam, na Rua do Padrão, esta capela e uma outra de invocação a Santo Ovídio, a qual foi demolida, devido à pressão de um morador do local, rico e influente, e a quem a capela tirava as vistas do mar. De acordo com a tradição, o dito morador consegui valer os seus intentos, mas acabou por cegar vendo o povo nesse facto um castigo divino.
Por curiosidade refira-se que a capela oitocentista do Senhor do Padrão foi afectada pelo terramoto de 1755 tendo aberto “algumas fendas nas paredes e nos tectos” e, pelo facto de não haver esmolas para a reparação, o referido abade requereu a imposição do real d’água, no concelho de Gaia, para financiar as obras.
Como foi referido uma das promessas normalmente feitas a Santo Ovídio era a oferta de telhas. Esta particularidade, praticada em terras gaienses em tempos não muito distantes, é também conhecida de outras festas a Santo Ovídio, nomeadamente em Meixomil (Paços de Ferreira), Louro (Vila Nova de Famalicão), Valença e nas terras galegas de La Guardiã e Santa Tecla. Era também praticada com outros santos, nomeadamente S. Brás, na Nazaré, a S. Vicente e na festa do Espírito Santo, no lugar de Sá (Ponte de Lima). Em Valença, segundo a tradição, para obter as graças do Santo, devia oferecer-se sal e telhas roubadas, atadas com um vime novo, no dia da romaria.
De acordo com Soledade Martinho Costa esta prática aparece como propiciatória no roubo ritual que se fazia outrora do Menino Jesus que Santo António segura no colo, muitas vezes desaparecida da imagem do Santo, tradição que se manteve até aos inícios do séc. XX, segundo o povo, para dar sorte.
Uma notícia inserta no Jornal “O Concelho de Gaia”, de 6 de Setembro de 1873, dá conta dos festejos daquele ano; havia três dias de festa com missa solene, Santíssimo exposto, sermão e música. O arraial “é dos mais concorridos d’estes arredores”. Na segunda-feira houve feira, com distribuição de prémios “áquelles lavradores que apresentarem melhores exemplares de gado vaccum e suíno”. Na feira vendia-se de tudo, nomeadamente sementes e melancias.
Actualmente as festas são organizadas pela Junta de Freguesia de Mafamude e os programas das últimas festas têm incluído, para além das festas religiosas (missa e procissão solene), eventos desportivos, arraial e actuação de grupos folclóricos e musicais numa parceria entre a autarquia e as instituições associativas locais.
Remissivas: O Lugar de Santo Ovídio; a paróquia de Santo Ovídio; Fábrica de Loiça de Santo Ovídio/ Feira de Santo Ovídio/ Igreja nova de Santo Ovídio.

Bibliografia:
. COSTA, Francisco Barbosa da - S. Cristóvão de Mafamude: notas monográficas. Vila Nova de Gaia; Mafamude: Câmara Municipal, Junta de Freguesia, 2001.
. O Concelho de Gaia / ed. lit. Manuel Pinto dos Reis, de 06.09.1873.
. QUEIRÓS, Francisco, Pe. - Santo Ovídio , In: B.A.C.A.G., V. 1, nº 4 (Abr., 1978), p. 58-59 : 2 il.
. http/www.sarrabal.blogs.sapo.pt
. SILVA, Francisco - Mafamude velho: em recordações de saudade, In: B.A.C.A.G. – V. 3, nº 18 (Maio, 1985), p. 61-65: il.
. VALE, Carlos - A Capela do Senhor do Padrão, In: B. A.C. A. G. - V. 2, n.º 15 (Nov., 1983), pp. 51-54.

Sala de Fundo Local, Setembro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

A Feira de S. Mateus ou Feiras das Nozes, em Arnelas


Recorte do jornal “O Comércio de Gaia”, de 19.09.1955, p. 28


Imagem de S. Mateus, na capela de S. Mateus, de Arnelas



O largo onde se realiza a Feira das Nozes, em Arnelas



Local: Arnelas, Olival, Vila Nova de Gaia
Data: 21 de Setembro (dia de S. Mateus)
Sinopse:A feira de S. Mateus, ou Feira das Nozes, realiza-se na povoação gaiense de Arnelas, da freguesia de Olival, no dia 21 de Setembro, dia consagrado no calendário religioso a S. Mateus. O nome por que ficou popularmente conhecida esta feira deriva do facto de o produto mais transaccionado ser aquele fruto, embora a nogueira não seja árvore muito frequente na região. Em tempos era ali que os comerciantes da praça do Porto se abasteciam daquele fruto seco e os preços praticados constituíam uma referência no mercado regional da noz.
Esta feira terá sido criada por D. João V, a pedido das populações, sendo certo que em 1758, como consta nas Memórias Paroquiais, já se realizava “a feira de Sam Mateus que dura quinze dias e às vezes mais, finda em o dia do Santo, todos os que nela vendem pagam de assento vinte reis a o senhor da Quinta do Paço que está no mesmo lugar”.
A importância da povoação de Arnelas, no passado, adveio da sua localização geográfica, junto ao rio Douro, em frente à foz do Rio Sousa, tendo boas condições naturais para a ancoragem dos barcos. Por aqui passavam os barcos rabelos que, na descida do Douro, transportavam os cascos de vinho destinado ao abastecimento da região da Vila da Feira e da cidade do Porto. Na viagem de retorno os rabelos levavam o sal, destinado às regiões da Beira-Douro e transmontana e que aqui chegava transportado em carros de bois, desde Ovar.
Da importância do entreposto de Arnelas nos dá conta o Padre Luís Cardoso, em 1747, fazendo igualmente referência ao facto de os moradores, a pretexto da pequenez da capela local, já centenária, terem solicitado ao rei D. João V provisão para ser lançado um imposto de um real em cada quartilho de vinho e em cada rasa de sal que se vendesse no então couto de Crestuma para reedificar e ampliar a dita capela, cuja primeira pedra foi lançada em 20 de Outubro de 1723. Trata-se da capela de invocação a S. Mateus que ainda hoje podemos admirar, em lugar altaneiro, da povoação de Arnelas. As suas linhas arquitectónicas não merecem lugar de destaque; ao invés, possui no seu interior riquíssimo retábulos em talha dourada, de estilo joanino, executados pelo importante entalhador portuense Manuel da Costa Andrade. No retábulo-mor sobressai, ao centro, a imagem de Cristo Crucificado, designado por Senhor do Triunfo, do século XVIII, ladeada pelas imagens de S. Mateus Evangelista que é o titular da capela, do séc. XVIII, e do santo dominicano S. Tomás de Aquino.
Em termos iconográficos, S. Mateus apóstolo e ex-recebedor de impostos, aparece representado com manto avermelhado e túnica talar, de cor esverdeada. Como é evangelista segura uma pluma, na mão direita, e um livro, na mão esquerda, tendo, ainda, aos pés um anjo que segura o tinteiro.
Na actualidade
Presentemente esta feira continua a realizar-se, no mesmo dia 21 de Setembro, embora algumas das nozes vendidas sejam provavelmente importadas e os preços já não têm um valor-padrão. Existem barracas que vendem todo o género de coisas, nomeadamente plásticos, artefactos agrícolas, regueifa doce, etc. Esta feira não pode ser dissociada de outra feira que se realiza no fronteiro lugar de S. Cosme de Gondomar, sito na margem direita do rio Douro, a qual tem lugar no primeiro fim de Outubro, no decurso dos festejos a Nossa Senhora do Rosário, considerada a última romaria do ano e que é igualmente conhecido como Feira das Nozes. A uma e outra festa, realizadas no espaço de cerca de duas semanas, acorre o povo de ambas as margens do Douro, bebendo o mosto da uva, aqui chamado de vinho doce, o qual, como manda a tradição, é acompanhado de regueifa e nozes.
Remissivas:
. Arnelas, porto fluvial e entreposto.
. Festa de Nª Sª do Rosário de Gondomar e Feiras das Nozes (8 de Outubro).
. Quinta do Paço, dos Condes da Feira.
. Festas do Senhor do Triunfo.
. Capela de S. Mateus.

Bibliografia:. AFONSO, José Ferrão; Arnelas: um porto muito especial, In: O Tripeiro. - Porto: Associação Comercial do Porto, 2005. - Ano XXIV, 7.ª Série, n.º 5 (Maio, 2005). - p. 132-135: 2 il.

. BRANDÃO, Domingos de Pinho, 1920-1988; A talha dourada da capela de Arnelas, freguesia do Olival - Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 1987.

COSTA, Francisco Barbosa da; Memórias Paroquiais de Vila Nova de Gaia, Vila Nova de Gaia, Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, 1984.

. Efeméride do século passado relacionada com o Senhor do Triunfo de Arnelas, In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. - Vol. 2, nº 12 (Maio, 1982), p. 60-61 : 3 il.

GONÇALVES, Álvaro Pinto; Nasci à beira do rio, Vila Nova de Gaia, Afonseiro Edições, 1986.

. PACHECO, Hélder; O Grande Porto, Lisboa, Editorial Presença, 1986.

. NOGUEIRA, Isabel Maria Correia, ROCHA, Rosa Maria Alves; CARVALHO, Luís Lopes Teixeira de; Esboço monográfico de Santa Maria de Olival, Vila Nova de Gaia, Junta de Freguesia de Olival, 1984.

. Rancho Regional de Gulpilhares. Vida e obra. Recordações e usos e costumes da nossa terra 1936-1986. Vila Nova de Gaia, 1985.

. SILVA, Moreira da; Arnelas : a mais linda varanda sobre o rio Douro, In: Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia. - Vol. 1, nº 9 (Out., 1980), p. 48-51 : il.








quinta-feira, 5 de agosto de 2010

A Romaria da Senhora do Pilar


Ponte D. Luís. A pé e de eléctrico, a caminho da romaria

(séc. XX – 3ª década) - In Ilustração Moderna


Romaria da Senhora do Pilar, no Campo de Manobras,

junto ao aqueduto que abastecia o mosteiro. (séc. XX – 3ª década)

In Ilustração Moderna




A romaria gaiense de Nossa Senhora do Pilar, também chamada de Nossa Senhora da Glória do Pilar tem lugar no dia 15 de Agosto, na igreja e no largo fronteiro à igreja do mosteiro da Serra do Pilar, considerado Património da Humanidade em 1996. É uma festa ainda cheia de tradições, como adiante veremos, apesar da crescente secularização e das mudanças estruturais que a sociedade actual tem conhecido.

A origem do culto e do dia da festividade
O dia 15 de Agosto é dedicado no calendário religioso à Assunção de Nossa Senhora ao Céu . O culto a Nª Sª do Pilar teve origem em Espanha, em pleno séc. XVII e terá sido trazido para Portugal depois da Restauração . De acordo com a tradição S. Tiago Menor, desalentado após o martírio de Santo Estêvão, no período das perseguições aos cristãos, veio pregar o Evangelho para Espanha. Foi aí que, segundo a tradição, lhe terá aparecido a Virgem, sobre um pilar, exortando-o à pregação e pedindo-lhe a construção de uma igreja, em sua dedicação. Em 1642 a cidade de Saragoça proclamou Nossa Senhora do Pilar padroeira da cidade, com festa no dia 12 de Outubro, dia considerado da aparição da Virgem a S. Tiago.
O culto a Nossa Senhora do Pilar que, a partir de Lisboa, conheceu uma larga difusão para o Brasil, arquipélagos dos Açores e da Madeira e Goa e internamente para a região de Tomar, chegou ao mosteiro dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho de Gaia em 1676 , sendo a imagem levada em procissão e colocada no respectivo altar na Páscoa de 1678, sendo fixado o dia da Assunção de Nossa Senhora (15 de Agosto) como o dia do festejo anual. O novo culto depressa ganhou raízes e deu nome quer à igreja e mosteiro, quer ao antigo Monte do Meijoeira ou de S. Nicolau, que hoje conhecemos como mosteiro da Senhora do Pilar e monte da Serra do Pilar, respectivamente, com festa instituída a 15 de Agosto e que dura há 332 anos.
A (quase) destruição da igreja e mosteiro da Senhora do Pilar
Como é sabido o sítio da Serra do Pilar é, em termos militares, um lugar estratégico e, por esse facto, a igreja e o mosteiro passaram por vicissitudes várias que, por pouco, não ditaram a ruína das ditas construções e o fim do valiosíssimo património material e imaterial que lhe está associado. Aqui se inscreveram algumas das páginas mais apaixonantes e decisivas da História de Portugal, como foram as da expulsão dos franceses da cidade do Porto e o episódio do Cerco do Porto, que opôs liberais e absolutistas. Com efeito em 1832 o mosteiro foi abandonado à pressa pelos frades e serviu de reduto às tropas liberais, ripostando contra os ataques miguelistas e apostadas na defesa da cidade do Porto. A acção das partes beligerantes levou à danificação de alguns edifícios do mosteiro, à destruição de outros, devido a explosões e à alteração da Cerca devido à construção de fortificações de ocasião. Ainda hoje são visíveis as marcas dos disparos nas paredes da igreja.

Os “salvadores” do mosteiro da Serra do Pilar
Podemos identificar pelos menos duas entidades que, pela sua acção, evitaram a ruína da igreja, do mosteiro, e a continuação do culto e da festividade da Senhora do Pilar.
A primeira foi a “Real Irmandade de Nossa Senhora da Glória da Serra do Pilar”, instituída por alvará da rainha D. Maria II, de 10 de Setembro de 1844, que aprovou os seus Estatutos; nestes é estabelecido no capítulo IV que “No dia da festividade da Padroeira haverá missa cantada de três Padres, e sermão com o Santíssimo Sacramento exposto. E no fim da missa se cantará o Te Deum Laudamis, em acção de Graças pelos benefícios recebidos por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Glória do Pilar: a qual visivelmente protegeu os briosos defensores do Throno, para restituírem à legítima Rainha a Senhora D. Maria 2ª, abroquelando os bravos soldados do Senhor D. Pedro, Duque de Bragança, de saudosa memoria, para recobrarem a Carta Constitucional da Monarquia Constitucional da Monarquia e com ela a Liberdade Nacional e legal” . À Irmandade se deve o restabelecimento das actividades religiosas na igreja e a manutenção da festividade em honra da Senhora do Pilar, conforme se consignou no § 2º do capítulo V dos Estatutos.
A segunda entidade nasceu em 1925, fundada por Ramiro Mourão e denominou-se “Grupo de Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar”. Dela faziam parte figuras gradas da sociedade gaiense da altura, ligadas à escultura, pintura, à política, à história, à indústria, à beneficência, à medicina, etc. Este grupo preocupado o estado de abandono e incúria a que o Estado devotou o mosteiro da Serra do Pilar, havia quase em século, intercedeu junto do Governo e da Câmara Municipal tendo em vista o restauro e a reconstrução das ruínas. Era também sua atribuição, para além de outras actividades culturais, a criação, dentro do mosteiro, de um museu regional arqueológico, etnográfico, histórico, etnográfico e artístico.

A festa da Senhora do Pilar ao longo dos tempos.
Segundo depoimento do Padre Jorge Neves, nas Memórias Paroquiais de 1758, “Tem grande romagem a Senhora do Pilar sita no Convento da Serra, que se festeja a 15 de Agosto, a qual de muitas e várias terras concorre inumerável povo, por ser muito milagrosa, e em alguns anos passados concorria a gente oito dias antes da sua festa” .
Em 1861 Monteiro de Azevedo ao referir-se ao estado de abandono do mosteiro dá-nos também conta “da invocação com que é venerada na Igreja deste convento a Santíssima Virgem, a quem se faz sempre e ainda hoje, uma festividade solene no dia 15 de Agosto, e juntamente um arraial e feira de sementes e apeirias de lavoura” .
Do programa das festas de 1926, que respigamos do jornal “A Luz do Operário”, para além da referência à feira das sementes e dos melões e melancias produzidos nos campos gaienses, constava do quadro festivo, no dia da véspera, a alvorada de morteiros, o concerto pela banda de Gondomar e a iluminação eléctrica à volta do templo, esta uma novidade para a altura; no dia da festa houve missa solene às 11 horas com sermão, arraial e música, desde a tarde à noite. Num ligeiro tom de crítica o jornalista lastima a exiguidade do programa que atribui ao desinteresse da população e lamenta que não houvesse uma música no Campo de Manobras como seria tradição. Quanto ao trabalho da Comissão de Festas considera de louvar o trabalho de angariação de donativos para a realização da festa e para a conservação do templo e do culto da Senhora do Pilar .
Como se pode ver dos vários relatos, referentes aos séculos XVIII a XX, tratava-se de uma romaria que cedo ganhou a adesão das gentes gaienses e das terras vizinhas, nomeadamente da cidade do Porto, de onde provinham muitos dos romeiros que atravessavam a ponte de D. Luís a pé. Conforme relata “A Luz do Operário”, nos anos vinte de Novecentos, “por ocasião de várias romarias que se têm realizado no concelho de Gaia o povo aflui em tal quantidade que a ponte baloiça com tal violência chegando a estabelecer-se o pânico entre os transeuntes” .

A romaria da Senhora do Pilar na actualidade
Que poderá encontrar o romeiro que hoje se desloca à festa da Senhora do Pilar, para além de um monumento de bela arquitectura, único em Portugal, bem conservado e com adro e acessos dignos do melhor registo?
No essencial a festa conserva muito da sua antiga tradição, mormente nas cerimónias religiosas (missa com sermão), embora a afluência tenda a diminuir. A nível de realizações profanas existe a feira e as tendas de venda de fruta, pão e doçaria regional, plásticos, brinquedos, instrumentos agrícolas, etc. Esta parte da festa acusa preocupações de sobrevivência e terá dificuldade para resistir às ofertas dos novos “templos” do consumismo. As festas actuais perderam muito do seu espaço de sociabilidade, de religiosidade popular e do seu papel de abastecimento público que lhes era peculiar.
De visita à romaria da Senhora do Pilar encontrámos ainda melões e melancias, mas já não são colhidas nos campos de Canidelo, de Valadares ou da Madalena; vêm do Sul ou de Espanha. Há contudo boa doçaria regional e os característicos “velhotes” e a broa de Avintes. Ainda encontrámos sementes variadas, vendidas por uma idosa simpática. Há também cestos, escadas, apetrechos da lavoura, em madeira e ferro e pequenas alfaias numa oferta muito superior à procura.

Sala de Fundo Local 30.08.2010

Bibliografia:
. AZEVEDO, João António Monteiro de; SANTOS, Manuel Rodrigues dos; Descrição Topográfica de Vila Nova de Gaia, edição fac-similada da 2ª edição, Vila Nova de Gaia, Associação Cultural Amigos de Gaia, 1995, p. 38.
. Boletim Cultural de Gaia, nºs 1 e 2, Vila Nova de Gaia, Amigos do Mosteiro da Serra do Pilar, 1966-1967.
. Gaya, vol. III, Vila Nova de Gaia, Gabinete de História e Arqueologia, 1985.
. GUIMARÃES, Gonçalves (1999); Serra do Pilar -.Património Cultural da Humanidade, Vila Nova de Gaia, Fundação Salvador Caetano.
. Mea Villa de Gaya (1909); Porto, Empresa Editora do Guia Ilustrado de Portugal.
. MOREIRA, Domingos A. (1985); Nossa Senhora do Pilar em Portugal, Vila Nova de Gaia

terça-feira, 29 de junho de 2010

Os “velhotes” – um ex-libris da gastronomia gaiense


Este elemento da doçaria popular conhecido por “velhotes”, ou “velhotes da braguesa” é um doce típico gaiense, que apresenta uma forma quadrada e é feito à base de farinha, ovos, canela, essência de limão e açafrão.
A exemplo da outra doçaria popular os “velhotes” tinham uma confecção sazonal, própria do período da Primavera e do Verão e coincidente com as grandes romarias de Vila Nova de Gaia e do Grande Porto. Horácio Marçal, em 1970, referia-se aos “velhotes” de Avintes, que, juntamente com as fogaças da Feira, os melindres de Casais Novos (Penafiel), o doce de Paranhos e o doce da Teixeira, eram vendidos nas “romarias de mais nomeada aqui das cercanias do Porto e até mesmo na própria cidade, como nas festividades (…) de S. Lázaro, Senhor da Boa Fortuna; Nossa Senhora da Lapa, Senhora da Saúde, etc” .
A propósito dos famosos “velhotes” de Avintes, apregoados sob a fórmula “Velhotes de Avintes!...” e vendidos pelas padeiras daquela freguesia na cidade do Porto, Sá Figueiredo regista que eles “eram fabricados com farinha, açúcar, ovos, leite, limão e manteiga. Tudo muito bem amassado, depois partia-se em pedaços que se esticavam, dobravam em pastas, e se coziam no forno, em calor brando” . Alude ainda ao facto de, num passado já não muito recente, os melhores “velhotes” serem os da “Casa Bacalhau”, sita no lugar avintense do Magarão e que era propriedade de Joaquim Bacalhau, um padeiro e regedor que foi caricaturado pelo artista Henrique Moreira.

Os “velhotes da braguesa”
Herdeiros ou não da receita e tradição dos “velhotes” de Avintes terão surgido no final do século XIX, em Valadares, os “velhotes da braguesa”. Segundo Gil Neves devem a designação ao facto de ter sido uma senhora bracarense de nome Maria Francisca da Silva, então residente em Valadares, a primeira a desenvolver a receita dum pão meio açucarado, a que seu marido João Gonçalves de Sousa, por cortesia, apôs este topónimo. Ainda segundo aquele autor esta espécie de pão-doce era fabricada aos sábados, encomendada por alguns retalhistas que o vendiam nas romarias gaienses, nomeadamente no Senhor da Pedra e na festa do Senhor dos Aflitos.

É tradição antiga em Vila Nova de Gaia a deslocação dos romeiros àquela festa valadarense, que tem lugar no primeiro domingo de Julho, com o propósito de comer os deliciosos “velhotes da braguesa”. Este facto é referenciado por Maria António Meireles a qual regista a tradição de que “dois dias antes do sábado do fogo de artifício, se fazia alguma provisão do dito pão doce que ficava depositado em tabuleiros a aguardar a ida ao forno de lenha para aquecer, no momento de maior procura após a cessação do fogo de artifício, em que o público se comprimia e acotovelava” .

A confraria dos Velhotes da Braguesa.
A popularidade deste doce típico da freguesia de Valadares e o facto de se querer preservar a tradição levou à criação da “Confraria Gastronómica do Velhote” cuja origem remonta a 1998 sendo a escritura notarial de fundação realizada em 27 de Dezembro de 2002. Constituem seus objectivos, entre outros, o da “Dignificação e divulgação da existência do doce regional “O Velhote”, promover colóquios e acções de âmbito cultural, certificar a qualidade do doce” .

Os “velhotes da braguesa” na trilogia dos ex-libris gastronómicos gaienses.
Nos dias 17 e 18 de Abril do corrente ano decorreu o fim-de-semana gastronómico de Vila Nova de Gaia, promovido pela Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia e pela entidade do Turismo do Porto e Norte de Portugal (TPNP). Neste evento os restaurantes gaienses aderentes apostaram na caldeirada de peixe, à moda da Afurada, na broa de Avintes e no doce típico Velhotes da Braguesa.
De acordo com o jornal Audiência “Vila Nova de Gaia aderiu à ideia da Entidade Regional de Turismo do Porto e Norte de Portugal e transformou os passados sábado e domingo num fim-de-semana gastronómico ao qual aderiram 20 restaurantes do município. A caldeirada de peixe, a broa de Avintes e o doce de romaria “Os Velhotes” foram eleitos os ex-líbris gastronómicos da cidade, mas o arranque do fim-de-semana ficou marcado por sabores ainda mais “apurados”. Para além da prova da ementa, os representantes da Entidade Regional de Turismo aproveitaram o sábado para uma visita institucional aos “pontos fortes” de Gaia, passíveis de divulgação turística. Parque Biológico, Rio Douro e Caves do Vinho do Porto foram os destinos de eleição” .
Estão, pois, de parabéns os “Velhotes”.

Bibliografia:
. FIGUEIREDO, Sá (1989) “Velhotes” de Avintes, in Boletim Associação Cultural Amigos de Gaia, 4º Volume, nº 28, Dezembro de 1989, pp. 26-27.
. MARÇAL, Horácio (1970); Doçaria monástica, regional e popular da área distrital do Porto, in Revista de Etnografia, Vol. XIV, Tomo I, Janeiro de 1970, Porto, Junta Distrital do Porto, pp. 83-117.
. MEIRELES, Maria Antónia; VALE, Maria Clara do (1997); S. Salvador de Valadares. Tradição e Modernidade, Valadares, Junta de Freguesia de Valadares.
. http://www.cgvelhote.com.
. http://www.jornalaudiencia.net.

Sala de Fundo Local, 2010-06-25

segunda-feira, 31 de maio de 2010

A inauguração da Ponte da Arrábida entre o Porto e Vila Nova de Gaia











Aconteceu, entre nós..., há 47 anos


A construção da Ponte da Arrábida e da auto-estrada que lhe dava acesso, a partir da povoação dos Carvalhos, provocou um enorme impacto no concelho de Gaia só comparável ao provocado, um século antes, pela construção do caminho de ferro da linha do Norte. E se é verdade que o concelho foi, literalmente, “rasgado” ao meio, com as implicações que daí derivaram, não deixaram de ser enormes as vantagens para a reestruturação da rede viária gaiense, ficando, deste modo, facilitada a comunicação entre as freguesias e o núcleo urbano.


A construção da ponte, a cargo do empreiteiro Engº José Pereira Zagallo, decorreu de 25 de Outubro de 1956 a 22 de Junho de 1963 e o seu custo ascendeu a cerca de 112 800 contos (o que, sem correcção monetária corresponderia, hoje, a 564 000€).


À data, as condições técnicas do projecto exigiram soluções inovadoras, sobretudo as decorrentes da construção do arco único com 270 metros de corda, à altura o maior arco do mundo, superior em 6 metros ao da ponte de Sandö, na Suécia. Refira-se que o cimbre desta ponte caiu após a primeira montagem, ceifando a vida a 17 trabalhadores, facto que se temia ver repetido aqui no Porto.


Esta obra de arte “honra a engenharia portuguesa seja pela monumentalidade e arrojo das suas linhas arquitecturais (…), seja ainda pelos notabilíssimos conhecimentos técnicos que estruturaram a sua execução e se revelaram de inexcedível profundidade e precisão em todas as dificílimas operações que se realizaram para levantar tão grandioso viaduto, vencendo as mais delicadas dificuldades e até o pessimismo de alguns reputados engenheiros estrangeiros que duvidavam do êxito da obra[1].


A inauguração


No sábado, à tarde, após uma majestosa sessão [de inauguração] presidida pelo chefe de Estado junto à Via Panorâmica, no lugar da Arrábida, percorreu a pé toda a ponte até Vila Nova de Gaia onde foi recebida pela Municipalidade gaiense. Tomando um carro, e seguindo de toda a comitiva, constituída por vários membros do Governo, e outras individualidades, percorreu a auto-estrada que se segue à ponte até aos Carvalhos, retrocedendo depois até ao ‘nó’ de Santo Ovídio e seguindo pelo túnel ali aberto em direcção à Avenida Marechal Carmona [actual Avenida da República], entrou no Porto pelo tabuleiro superior da ponte D. Luís[2].


O acontecimento descrito, plasmado pelo semanário gaiense “O Comércio de Gaia”, teve lugar no dia 22 de Junho de 1963 e foi presidido pelo então Presidente da República, Almirante Américo Tomás, que se fazia acompanhar pelo ministro das Obras Públicas, Engº Arantes e Oliveira e outras altas individualidades.


Refira-se que a viagem presidencial para as cerimónias de inauguração foi iniciada a partir da capital, até ao rio Douro, a bordo da fragata “Álvares Cabral”. Na Afurada foi organizado um cortejo fluvial, constituído por traineiras e outros barcos, os quais acompanharam o cortejo presidencial na subida do rio Douro. O desembarque deu-se junto às velhas “Escadas da Rainha”, na Ribeira portuense. Do programa da visita constou uma sessão solene no Palácio da Associação Comercial do Porto, a visita à Casa do Infante, ao Quartel-General, aos Paços do Concelho e Museu Soares dos Reis. Houve ainda um sarau de gala no Coliseu do Porto e um desfile folclórico, na Avenida dos Aliados, onde o concelho de Vila Nova de Gaia se fez representar pelo grupo folclórico dos “Mareantes do Rio Douro” que exibiram a cabeça de S. Cristóvão e a imagem de S. Gonçalo. A viagem presidencial terminou com uma grandiosa manifestação de despedida na estação ferroviária de S. Bento.


No ínterim destas actividades teve lugar a cerimónia de inauguração da ponte, pelas 16 horas da tarde, numa tribuna montada junto à ponte, na margem direita do Douro, a qual foi precedida de missa campal e discursos das individualidades presentes. Estas enalteceram o novo ciclo de progresso que se criava com a inauguração da nova travessia e dos seus acessos e das novas perspectivas de expansão da cidade do Porto adentro do novo Plano de Urbanização, da aproximação dos núcleos urbanos de Porto e Vila Nova de Gaia e da nova dinâmica que se previa para toda a região Norte. Valorizaram, igualmente, as vantagens que adviriam para o fomento das comunicações Norte/Sul e prestaram homenagem aos grandes obreiros da ponte, nomeadamente o ministro das Obras Públicas e o autor do projecto, o Prof. Edgar Cardoso.


Na intervenção final o Presidente da República depois de louvar o trabalho da engenharia portuguesa e a feliz conjugação entre técnica e estética de que a nova ponte era justamente o paradigma, fez entrega de condecorações e comendas a várias individualidades que concorreram para o sucesso da empreendimento. Não foi olvidada a massa anónima dos operários construtores, na ordem do milhar, a quem fez entrega das medalhas de “Obreiro da Ponte”, algumas delas entregues às respectivas viúvas. Após o lançamento da bênção litúrgica e do descerramento da lápide comemorativa a comitiva atravessou a ponte, a pé, cumprimentando as autoridades municipais de Vila Nova de Gaia e, seguindo a viatura presidencial, percorreram os novos acessos de auto-estrada até ao nó de Santo Ovídio, descendo a principal avenida gaiense e entrando no Porto pela Ponte D. Luís.


O autor do projecto – um prodígio da engenharia portuguesa.


O Engº Edgar Mesquita Cardoso nasceu a 11.05.1913, na cidade do Porto. Formou-se em Engenharia Civil pela Universidade do Porto fazendo estágio em 1937, na Divisão de Pontes da Junta Autónoma de Estradas onde começou a “dar nas vistas” pela sua capacidade e qualidade de trabalho. Foi funcionário da J.A.E. e professor catedrático do Instituto Superior Técnico. O seu nome está ligado a inúmeros trabalhos de engenharia civil tendo-se destacado, sobretudo, como um “engenheiro de pontes”, tendo assinado e orientado, ao longo de mais de 30 anos, dezenas de projectos de construção, recuperação e reforço de pontes e viadutos em Portugal e nas ex-colónias.


Na área do Grande Porto e região do Douro foi responsável por vários projectos, entre os quais destacamos:


. Ponte D. Luís (recuperação e reforço) (1954)

. Ponte da Régua sobre o Rio Douro (adaptação a ponte rodoviária).

. Ponte da Foz do Rio Sousa.

. Ponte da Arrábida (1955).

. Ponte de Abragão, sobre o rio Tâmega.

. Ponte de Mosteirô, sobre o Rio Douro (1968).

. Ponte de S. João (1983).


Curiosidades


Como curiosidade refira-se a discretíssima visita feita à ponte da Arrábida, na tarde do dia 21 de Junho de 1963 (véspera da inauguração oficial), pelo então Presidente do Conselho de Ministros, Oliveira Salazar, na companhia do então Governador Civil do Porto e ex-Presidente da Câmara de Gaia, Engº João Brito e Cunha[3].

Bibliografia:

. A ponte da Arrábida, in “O Tripeiro”, nº 6, VI Série, Ano III, Junho 1963, pp. 185-192.

. CRUZ, Paulo Jorge de Sousa; CORDEIRO, José Manuel Lopes; As Pontes do Porto, Porto, Civilização Editora, 2001.

. Inauguração da Ponte da Arrábida, Junho 1963; Porto, Câmara Municipal do Porto/Gabinete de História da Cidade, 1964.

. Jornal “O Comércio de Gaia”, de 03.06.1963, 24.06.1963, 01.07.1963 e 08.07.1963.

. Para a história da Ponte da Arrábida, in “O Tripeiro”, nº 7, VI Série, Ano III, Julho 1963, pp. 193-196.

. SOARES, Luís Lousada; Edgar Cardoso, engenheiro civil, Porto, FEUP, 2003.

Sala de Fundo Local, 2010.05.31

[1] A ponte da Arrábida, in “O Tripeiro”, nº 6, VI Série, Ano III, Junho 1963, p. 187.

[2] Jornal “O Comércio de Gaia”, ano 33º, nº 1649, de 24.06.1963, p. 1.









[3] http://www.britoecunha.com/historias5 [Consultado em 2010.05.27]









terça-feira, 27 de abril de 2010

29 de Março de 1809 - Evocação do desastre da Ponte das Barcas


O dia 29 de Março é recordado, particularmente pelas populações ribeirinhas do Porto e Vila Nova de Gaia, com um dia de luto. Com efeito foi nesse dia do ano de 1809 que se deu o tristemente célebre desastre da “Ponte das Barcas” que culminou com a morte de cerca de 4.000 pessoas.
Naquela era estava ainda presente nas gentes do Porto e arredores a memória recente da passagem dos franceses pela cidade. Em 13 de Dezembro de 1807 as tropas francesas haviam entrado, pela primeira vez, no Porto e aí permaneceram até 18 de Julho de 1808, data em que foram expulsos. Ao Porto voltaram ainda fugazmente as tropas do General Junot.
Em 12 de Março de 1809 o general Soult entrou em Portugal, por Chaves, e dirigiu-se ao Porto onde entrou em 27 de Março. A cidade foi conquistada e saqueada pelas tropas francesas, havendo focos de resistência por parte das populações. A cavalaria francesa entrou na cidade, depois de romper as trincheiras do Monte Pedral, a norte, e perseguiu o povo em fúria até à Ribeira.
Da Serra do Pilar as tropas portuguesas ripostaram como puderam. O povo em fuga dirigiu-se em grande número para a “Ponte das Barcas” tentando passar para o lado de Gaia. Perante a fragilidade da ponte e a imensidade de gente que a atravessava aquela cedeu e alguns milhares de pessoas caíram e pereceram nas águas do Douro.
Após esta tragédia Soult, instalado no Palácio das Carrancas e querendo ganhar a simpatia dos portuenses, proibiu novos saques, mandou patrulhar as lojas, mercados e igrejas para evitar novas pilhagens, isentou os povos do direito de portagem e mandou distribuir sopa às pessoas carenciadas.
No dia 12 de Maio Soult foi batido no Porto pelas tropas anglo-lusas, comandadas pelo Duque de Wellington e foi obrigado a retirar para Espanha, atravessando em 18 de Maio a fronteira em Montalegre, acabando assim a segunda invasão francesa.

Memória da tragédia da Ponte das Barcas
Para perpetuar a memória do desastre da Ponte dos Barcas todos os anos, no dia 29 de Março, saía em procissão a Irmandade de S. José das Taipas, que se dirigia para a Ribeira, para sufragar as almas da ponte.
No mesmo local existe um pequeno monumento evocativo, da autoria do escultor gaiense Teixeira Lopes (Pai), datado de 1897, onde o povo simples da Ribeira, no dia a dia, acende velas em evocação.
No ano passado, por ocasião do bicentenário da tragédia da “Ponte das Barcas” foi inaugurado, pelo Presidente da República, um monumento evocativo, da autoria do arquitecto Souto Moura. A peça, feita em aço patinável, encontra-se no local onde se situava a amarra norte da “Ponte das Barcas”, bem perto da Ponte D. Luís. No local da amarração sul da “Ponte das Barcas” existe uma peça simétrica. As peças em ferro, de oito metros de comprimento, estão cravadas à terra e projectam-se em direcção ao rio.
De acordo com o autor “É um monumento evocativo da Ponte das Barcas e, como uma ponte, tem duas margens e duas intervenções simétricas dos lados do Porto e de Gaia. É uma chapa aplicada no cais que foi dobrada para receber, eventualmente, os cabos de uma ponte".

A Ponte das Barcas
Ao longo dos séculos a comunicação de pessoas e mercadorias entre as margens do Douro era feita através de barcos. Apesar de vários projectos para a construção de uma ponte sobre o rio Douro que servisse as populações do Porto e de Vila Nova de Gaia, nomeadamente o da construção de uma ponte em pedra, da autoria de Carlos Amarante, a primeira passagem seria lançada somente no ano de 1806, tendo sido aberta ao público a 15 de Agosto de 1806, dia de Nossa Senhora do Pilar. Era constituída por 33 barcas, com cerca de mil palmos de extensão e abria e fechava para dar passagem às grandes embarcações que subiam e desciam o rio. Em tempo de cheias a ponte era desmantelada para evitar a sua destruição.

Havia muita concorrência na sua passagem, sobretudo às terças e sábados. Os preços de passagem praticados eram os seguintes:

Cada pessoa a pé ……………………………... 5 réis
Cada pessoa a cavalo ………………………..20 réis
Carro de uma junta de bois …………….. 40 réis
Cadeirinhas de mãos ……………………….. 60 réis
Liteira …………………………………………….. 120 réis
Sege ………………………………………………….160 réis

À noite, passados 45 minutos do sol-posto, os preços duplicavam, taxa que se mantinha até 45 minutos antes do nascer do sol, em momento que era anunciado pelo toque de um sino.
A “Ponte das Barcas” revestiu-se de uma enorme importância para o desenvolvimento das comunicações entre as zonas ribeirinhas, mas também no contexto inter-regional, na ligação entre as margens norte e sul do rio Douro.
No entanto, dadas as suas naturais limitações, a crescente necessidade do desenvolvimento das comunicações e a melhoria dos meios técnicos a nível da engenharia de pontes, nos anos 40 de Oitocentos foi projectada nova ponte, a nascente da velha “Ponte das Barcas”. A “Ponte Pênsil”, “Ponte de Ferro”, ou “Ponte D. Maria II”, como foi chamada, sob projecto e execução do Engenheiro Claranges Lucotte, demorou 1 ano, 9 meses e 15 dias a ser construída e abriu subitamente ao público no dia 18 de Fevereiro de 1843, em virtude de uma grande cheia que obrigou ao apressado desmantelamento da velha ponte móvel.

2010.03.29.



Bibliografia:
Descrição Topográfica de Vila Nova de Gaia por João António Monteiro de Azevedo, acrescentada por Manuel Rodrigues dos Santos, 2º edição, Porto, Imprensa Real, 1881.
Jornal de Notícias, de 2009.03.14.
LIMA, Durval Pires de; Os Franceses no Porto – 1807-1808, Porto, Câmara Municipal do Porto/Gabinete de História da Cidade.
Os Franceses no Porto em 1809 (Testemunho de António Mateus Freire de Andrade). Apontamentos coligidos pelo Conde de Campo Belo, Porto, Câmara Municipal do Porto/Gabinete de História da Cidade, 1945.

RAMOS, Luís A. de Oliveira (dir.); História do Porto, Porto, Porto Editora, 1994.

Dia Internacional da Mulher


 


No dia 8 de Março comemora-se o “Dia Internacional da Mulher”, instituído pela Organização das Nações Unidas em 1977, depois de dois anos antes, ter designado o ano de 1975 como o “Ano Internacional da Mulher”. Em 1979 foi aprovada uma Convenção com vista a eliminar todas as práticas discriminatórias contra as mulheres.
Desta forma pretendia-se chamar a atenção para os preconceitos e discriminações de que a mulher era alvo e operar uma mudança de mentalidades tendo em vista a dignificação do seu papel na sociedade.

Refira-se que o dia 8 de Março já era comemorado desde o princípio do século (mais propriamente desde 1909), o qual foi escolhido, por proposta da alemã Clara Zetkin, numa conferência internacional de mulheres socialistas que decorreu naquela data, na capital da Dinamarca. Pretendia-se, dessa forma, homenagear as operárias têxteis americanas mortas na jornada de luta que decorreu no dia 8 de Março de 1857, na cidade de Nova Iorque, no decorrer de uma greve que culminou num fatídico incêndio de que resultou a morte de mais de uma centena de operárias.
À data as operárias têxteis americanas lutavam pela redução da jornada de trabalho de 16 horas para 10 horas e pelo aumento dos seus salários que não ultrapassavam 1/3 dos magros salários dos homens.
As décadas seguintes serão marcadas pelo reforço da organização sindical do operariado feminino, na luta por melhores condições de trabalho. Em 1908 cerca de 15 mil mulheres manifestaram-se nas ruas de Nova Iorque, reivindicando a redução do horário de trabalho, melhores salários e o direito de voto.
O movimento reivindicativo das mulheres esmoreceu no período entre as duas guerras e da posterior reconstrução europeia e só foi revitalizado pelos movimentos feministas da década de 60, que na senda do movimento de Maio de 1968, ousaram trazer para a rua a discriminação social e política e a violência que impendia sobre as mulheres.
Em Portugal somente depois do 25 de Abril a mulher conquistou a igualdade política reconhecida no exercício do direito de voto que os regimes anteriores lhe haviam negado. O regime salazarista reservou-lhe o papel de esposa e mãe, vedando-lhe o acesso à docência universitária, à política, etc. Havia profissões em que a ocupação de um lugar remunerado carecia de autorização escrita do marido (ex. professora primária, comerciante) ou até em que o acesso à maternidade lhe era praticamente vedado (ex. enfermeiras, hospedeiras de bordo, etc.).
No entanto a lenta mudança de mentalidades foi responsável, já em plena democracia, pela manutenção de resquícios de discriminação feminina, quer praticado no seio familiar, quer a nível social e político. Algumas mudanças vão sendo operados por via legislativa. Assim é já da década de noventa a legislação que lhe reconhece igualdade de oportunidades no acesso a emprego público. Recentíssima é célebre “lei das quotas” que obriga à fixação de um número mínimo de candidatas nas listas para eleição de cargos políticos.
Na actual sociedade portuguesa, apesar das profundas alterações a mulher é ainda vítima de antigas discriminações estando porém sujeita a novas discriminações, como o assédio sexual e moral, o despedimento em situação de maternidade, a violência doméstica, etc.
Por todo o mundo, em pleno século XXI, são, infelizmente, “banalíssimas” as notícias de profunda discriminação das mulheres em certas civilizações, de tráfico de mulheres para o mercado clandestino da prostituição, ou das mulheres ainda obrigados a actos de excisão de cariz religioso em certas regiões africanas, ou de cenas de violência praticada sobre mulheres e crianças em ambientes de guerra, ou no próprio seio familiar.

Mulheres famosas:
Ao longo dos tempos, por todo o lado, muitas foram as mulheres que ousaram vencer barreiras, romper preconceitos, ou ombrear com os homens no acesso a lugares que lhe eram vedados, ocupando lugares de destaque no mundo da literatura, da música, da costura, dos negócios, do ensino superior, etc. A essas, ainda que postumamente, tem a História feito justiça, operando, caso a caso, a sua reabilitação. De igual modo, ainda que em termos modestos, tem sido feita a reabilitação e homenagem colectiva (normalmente baseada na profissão) à mulher anónima que duramente assumiu o tríplice papel de trabalhadora, esposa e mãe.

Evoquemos, por isso, alguns exemplos:

No mundo:
Florence Nightingale (1820-1910), inglesa, enfermeira e voluntária de guerra.
Cosima Liszt Wagner (1837-1930), música e escritora (divorciada).
A bela Otero – Carolina Otero Iglésias (1868-1965), bailarina espanhola, amada por várias monarcas das cortes europeias. Grande benemérita.
Maria Montessori (1870-1952) – primeira italiana formada em Medicina. Grande pedagoga junto das crianças pobres dos bairros de Roma.
Coco Chanel, de nome Gabriela Bonheur (1883-1971) – Criadora de moda francesa, com ligação à criação de perfumes e adereços de toilete.
Elena Dimitrievna Diakova, conhecida por Gala (1894-1982). De ascendência russa, casou com um poeta surrealista francês e viveu com Salvador Dali que muito influenciou.
Anna Freud (1895-1982) – Psicanalista austríaca, filha de Sigmund Freud, foi um das pioneiras em psicologia infantil.
Madre Teresa de Calcutá, de seu nome Agnes Gonxha Bojaxhiu (1910-1997) – nascida na Albânia foi missionária e criadora da congregação das Irmãs da Caridade. Teve um trabalho notável no apoio a leprosos, vítimas de SIDA e mulheres abandonadas. Foi Prémio Nobel em 1979.
Maria Antonietta Macciocchi (1924-2007) – escritora, professora e política italiana denunciou atrocidades cometidas por regimes comunistas.

Em Portugal:
Luísa Todi – Luísa Rosa e Aguiar (1753-1833) cantora de ópera, cantou para as grandes cortes europeias chegando à Rússia de Catarina II.
A Ferreirinha – António Adelaide Ferreira (1811-1896) – grande empresária vinhateira ligada à produção do vinho do Porto após ter ficado viúva, no período da invasão da filoxera.
Palmira Martins de Sousa Bastos (1875-1967) – filha de gente modesta, tornou-se numa das actrizes mais respeitadas do teatro. Foi grande amiga da rainha D. Amélia.
Maria Lamas – Maria da Conceição Vassalo e Silva da Cunha Lamas (1893-1983) – escritora e interveniente política foi perseguida pelo regime salazarista que a forçou ao exílio. Foi umas das militantes da causa da emancipação da mulher em Portugal.
Sara Afonso (1899-1987) – Pintora e ilustradora, foi esposa do pintor Almada Negreiros. Foi a primeira mulher a frequentar um café exclusivamente masculino, a “Brasileira do Chiado”.
Ilse Losa (1913-2006) – alemã de ascendência judia, radicou-se em Portugal fugida da perseguição nazi. Foi escritora de literatura para crianças e grande divulgadora da literatura portuguesa na Alemanha.
Sophia de Melo Breyner Andresen (1919-2004) – Grande poeta e ficcionista portuguesa, foi uma combatente da liberdade durante o regime salazarista.

Em Vila Nova de Gaia:
Isabel Van Zeller, de seu nome Maria Isabel Wittenhall Van-Zeller (1749-1819), nasceu em Avintes, na quinta de Santo Inácio, propriedade da família. Foi pioneira da introdução da vacina anti-antivariólica no norte de Portugal. Em 1808 a Real Academia de Ciências atribuiu-lhe a Medalha de Ouro e a concessão do grau de Sócia Correspondente. Foi injustiçada e perseguida pela classe médica sua contemporânea que a acusaram de charlatanice.
Maria Alberta Menéres, de seu nome Maria Alberta Rovisco Meneres de Melo e Castro – foi professora , tradutora, poetisa e escritora de literatura infanto-juvenil, tendo recebido o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens em 1986. Nasceu em Vila Nova de Gaia em 25 de Agosto de 1930.
D. Adozinda Anes, nascida em 9 de Janeiro de 1930, em Salselas, concelho de Macedo de Cavaleiros, no seio de uma família numerosa de gente humilde. Fixou-se em Vila Nova de Gaia e a sua capacidade e empreendedorismo fizeram dela uma verdadeira self made woman e reconhecida empresária na área da restauração numa das mais bonitas praias de Vila Nova de Gaia, na freguesia de Canidelo.
Fanny Owen, filha do Coronel Owen, um conselheiro militar de D. Pedro IV no episódio das lutas liberais, Fanny Owen protagonizou uma história verídica de amor com José Augusto Pinto de Magalhães, de Vilar do Paraíso, sob o olhar de Camilo Castelo Branco. Agustina Bessa-Luís inspirou-se na sua vida imortalizando-a na sua obra literária.

Um poema de homenagem à mulher


Descalça vai para a fonte
Descalça vai para a fonte
Leonor pela verdura;
Vai formosa e não segura.
Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata.
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote.
Mais branca que a neve pura;
Vai formosa e não segura.
Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado,
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta;
Chove nela graça tanta
Que dá graça a formosura;
Vai formosa e não segura.

de Luís Vaz de Camões


2010.03.05


Bibliografia:


. Ferreira, Manuel do Carmo (2009) - D. Adosinda Anes: duas palavras, uma vida. Vila Nova de Gaia, IKdiagonal.
. Boletim da Associação Cultural Amigos de Gaia, nº 8, junho 1980; nº 23 , novembro 1987; nº 67, dezembro 2008.